quarta-feira, 12 de maio de 2021

09 de Março de 2021 - Niver da Elysa

 Ontem foi celebrado o Dia Internacional da Mulher, hoje, 09 de março é o seu Dia.

Já se passou quatorze anos que você chegou a família Barbosa.

E desde que chegou mudou para sempre nossa perspectiva de mundo.

Eu achava que já entendia tudo sobre a paternidade. Achava que tinha tudo sob controle e por que eu já era pai de menina, sua chegada seria mais fácil.

Ledo engano.  

Você veio mostrar que sua trajetória seria única. 

Singular.

E que eu como pai deveria me reinventar para entender sua dinâmica e entusiasmo pela vida. 

Um cara como eu, monossilábico e de poucos amigos, tive que aprender a fazer chá de princesas, encontro de meninas, e etc.

Tudo muito desafiador, mas ao mesmo tempo encantador.

De fato ser seu pai tem um sido um encanto, uma alegria que impressiona. 

E impressionado estou com a menina que você é.

E mais ainda com a menina que pode ser.

Sua vida é brilhante.

Hoje este 09 de março é todinho seu.


Parabéns Elysa

terça-feira, 9 de junho de 2020

Wellington Barbosa | 22 de janeiro de 1974

Bem, terminamos hoje uma série de relatos com pequenas percepções a respeito dos filhos do Sr Luiz e da D. Isa.

Relembrar essas histórias, me fez refletir sobre a caminhada da nossa família e de como ela foi transformada pelo amor,  dedicação e trabalho de todos.
Dos mais novos aos mais velhos, todos, sem exceção participaram ativamente e contribuíram de forma significativa para a manutenção da vida e continuidade dos sonhos.
Nós tínhamos tudo pra dar errado, mas tudo deu bastante certo.
Já adianto que NÃO existem culpados nessa história. Somente vítimas.
Não há culpa em receber uma herança perniciosa que nos impossibilita enxergar planos melhores. 
Recebemos uma herança cultural, econômica e financeira que nos vitimizou, não nos dando chance de escolher os melhores caminhos para começar. 
Mas mesmo assim começamos. 
Começamos nossa caminhada com o que tínhamos em mãos, ou melhor, começamos com o coração, com o amor de uma família que sempre esteve junta em suas muitas alegrias e desafios. 

Pra mim este foi um dos textos mais difíceis de escrever, pois ao vasculhar esse momento histórico em minhas lembranças encontro um ambiente bastante dolorido e de muitos sentimentos angustiantes. 
Mas vou tentar manter o foco em nosso irmão mais velho, e com todo o respeito que ele merece apresentar um breve relato da minha percepção desta pessoa também muito especial pra mim.

Wellington Barbosa, nasceu em 22 de janeiro de 1974 em São Paulo. 
Desde quando me percebi por gente, ele já era o xodó de toda a família. 
Em todos os lugares que eu ia com ele, a impressão que tinha era de que todos gostavam dele. 
Ele era querido pelos tios, pelos amigos da família, era o queridinho da vovó que sempre o tratou com um carinho mais do que especial. 
Ele era bom em tudo o que fazia. 
Um bom nadador. 
Um bom jogador de futebol. 
Um bom aluno. 
Um bom lutador de Taekwondo.
Um bom filho.
Acho que foi por causa de tudo isso que comecei tentar imitá-lo e querer ser como ele. 
Na verdade, ele passou a ser um exemplo pra mim. 
O Wellington também teve uma participação muito ativa em minha alfabetização. Me ensinou os princípios elementares da matemática e me ajudou bastante em outras tarefas escolares e também sobre vários aspectos da vida.

Assim com os outros irmãos mais novos ele também começou trabalhar muito cedo e carregou, em alguns momentos, sobre seus ombros juvenis o peso de ser o único provedor da casa.
Além da árdua tarefa de ser o homem da casa em plena adolescência, ele tinha que aguentar uma pressão psicológica muito intensa nos períodos que o nosso velho se perdia em seus caminhos e decisões.
Não era só trabalhar para prover, mas ainda ter nervos firmes para aguentar as brigas e discussões dentro de casa. Ver sua mãe ser hostilizada e agredida física e emocionalmente, sem ter idade e nem condições psicológicas para defende-la ou se posicionar de forma contundente numa casa devastada pelo vício.
Ele sempre foi muito calado, mas não dá pra mensurar com exatidão as dores que um ambiente desse pode causar em um adolescente.

Não sei nem o que dizer sobre tudo isso.

Mas sei  que ele continuou lutando. Enfrentando seus medos. Suas angústias e profundas dificuldades. 
E prosseguiu sua jornada com hombridade.
Pra mim o ápice de sua maturidade foi vê-lo cuidar do nosso velho, quando este ficou doente. 
Fazer sua barba. 
Lhe dar banho, lhe vestir...

Cara, que exemplo você me deu.

Como familia, não tivemos muitas escolhas quando começamos.
Mas graças a Deus e a todos os irmãos, hoje podemos escolher os nossos rumos.
E as escolhas de hoje, podem nos levar a um futuro ainda melhor.
Um futuro que começou lá atrás, desbravado por um menino forte.
Abrindo clareiras em matas embrenhadas, facilitando o caminho de todos os outros que vieram em seguida.

Termino chorando. 

Mas orgulhoso por tê-lo como meu irmão.

Luciano Barbosa | 13 de março de 1980

Hoje eu preciso mudar o tom. Melhorar a empostação. Buscar eloquência nas palavras e formatar de maneira primorosa esta síntese a respeito de alguém especial em minha vida. Mas já adianto que provavelmente não conseguirei atingir tão alto e elevado nível de proficiência das normas cultas deste dificílimo idioma e certamente me faltarão palavras adequadas ao meu simplório vocabulário para personificar com maestria esta tão nobre pessoa com seus inúmeros atributos. 
Sendo assim, diante de toda esta complexidade existentes em enaltecer esta pessoa, começo me vangloriando a respeito de algumas vezes que tive que defende-lo na rua para não o deixar apanhar sozinho. E também faço questão de registrar, sem nenhuma glória pessoal, a vez que fui golpeado por este cavalheiro com um direto de direita do meu olho esquerdo, o que deixou um hematoma bem dolorido por vários dias. Sim, senhoras e senhores, falo do Luciano, um menino pardo que nasceu em 13 de março de 1980 em Caruaru, Pernambuco. Um dos filhos do meio de seis irmãos, com personalidade forte, que buscava o seu espaço no mundo de forma imponente e que aprendeu a lutar pela sobrevivência num mundo hostil desde muito cedo.
Minha mãe diz que ele deu um pouco de trabalho quando criança, que eventualmente era teimoso e desobediente e que por isso teve que  “discipliná-lo” mais do que a média dos outros irmãos. Isso acontece, cada filho externaliza seus conflitos e aspirações de maneira diferente. Mas, a palavra disciplina o acompanharia por toda sua jornada de vida, não por características depreciativas, mas pelos esforços empreendidos em todas suas batalhas, pelo foco, pelo empenho e pela força de vontade impressa à sua personalidade que reverberaria em todas as esferas da sua vida.
O menino pardo reescreveu seus caminhos de uma forma magistral e ajudou a transformar a história de uma família que tinha tudo pra dar errado.
Hoje o nego Lú é chamado de Dr. Luciano. Não por acaso ou sorte, mas por muito trabalho, esforço, dedicação e disciplina.

Te admiro meu brother.

Alexandre Barbosa | 26 de julho de 1981

Normalmente os irmãos do meio têm uma vida bastante desafiadora. Eles precisam de um esforço maior para encontrar seu espaço no universo familiar e conquistar a disputada atenção dos pais, que normalmente tem primazia entre o primogênito e o caçula. Segundo pesquisas, tal situação pode transformar os filhos do meio em bons negociadores, especialistas em cooperação e pessoas de raciocínio rápido. Eles precisam estar atentos ao que acontece ao seu redor e lidar de forma inteligente com as diferentes personalidades dos outros irmãos, fazendo com que sejam um dos mais queridos.
O Alexandre é um dos filhos do meio, de uma prole de cinco meninos e uma menina. Nasceu em 26 de julho de 1981 no hospital do Tatuapé em São Paulo, em uma das décadas mais difíceis que o Brasil enfrentaria em termos econômicos e financeiros.
Ele rapidamente se tornou o queridinho de todos, tão querido que foi o único a ganhar uma bicicleta de presente do seu irmão mais velho. Sempre teve um raciocínio rápido e respostas práticas na ponta da língua em problemas do cotidiano. Nas brigas de irmãos era sempre um dos mais tranquilos e normalmente quando estava envolvido era por instigação ou influência dos mais velhos.
Assim como seus irmãos, ele também começou a trabalhar muito cedo, assumindo responsabilidades que não eram compatíveis com sua idade. Mas seguiu firme em sua jornada, e mesmo com suas inúmeras dificuldades desbravou seus caminhos, venceu muitos obstáculos seguindo na construção de seu futuro. Futuro este, materializado e personificado com a chegada de seus filhos, que com certeza levarão à posteridade a essência de um homem bom e de bom coração.
É um dos irmãos do meio, mas assim como os outros, está no centro dos afetos, ocupando lugar central em nossos corações.

Flávio Barbosa | 14 de janeiro de 1983

Em 1983, um dos hits mais tocados nas rádios brasileiras era uma música do Gonzaguinha, interpretada pelo Fagner, Guerreiro Menino (Um homem também chora).
No início desse mesmo ano, mais precisamente em 14 de janeiro, nasce um Santo André, São Paulo, alguém que personificaria a figura paradoxal de um guerreiro menino.
Desde sua tenra infância, o Flávio sempre foi muito aguerrido, alguém que não fugia de uma boa luta e de um bom combate. 
Mesmo sendo o mais novo dos meninos, ele não se calava em meio aos inúmeros desaforos impostos pelos irmãos mais velhos que insistentemente o provocavam. Ele ia pra cima, com força e com vontade descomunal, mesmo diante de sua infante fragilidade na tentativa de enfrentar os seus algozes.
Desde muito cedo ele enfrentou com coragem os inúmeros desafios de uma infância pobre, começou trabalhar ainda muito jovem assumindo responsabilidades de gente grande. Um de seus primeiros empregos foi numa fábrica de blocos, um esforço extenuante sobre os ombros de um menino de doze anos, que ainda não tinha uma estrutura física e muscular adequada para aguentar um trabalho tão pesado.
Foi num ambiente hostil que ele se fortaleceu, se desenvolveu. Cresceu. Se casou. Teve filhos. E se tornou um homem de bem, um bom filho, um bom pai e um bom irmão. Uma pessoa com um coração enorme, com uma percepção de enxergar o outro em suas aflições de uma maneira muito aguçada e peculiar.
Ele é um sobrevivente! Um guerreiro que leva as marcas de suas lutas internas e externas, mas está sempre com uma cara boa, sorrindo e sendo sempre um menino brincalhão.
Espero que ao terminar sua missão ele possa dizer de forma altissonante: “Combati o bom combate, acabei minha corrida e guardei a fé”.
Obrigado pela força e por sua amizade.

Daniele Barbosa | 14 de junho de 1985

A Dani foi o último desejo de uma mulher que já tinha cinco meninos e por algum motivo a chegada de uma menina completaria sua alegria.
Ela chegou em 14 de junho de 1985, depois de um translado interestadual. Como diria o nosso velho, ela foi fabricada em São Paulo, mas desempacotada em Caruaru, Pernambuco.
Não sei se você consegue imaginar o ambiente que ela teve que crescer. 
Uma casa cheia de meninos, um pai extremamente machista e nenhum plano desenvolvido para as sutis delicadezas do universo feminino.
Com certeza Darwin ficaria espantado com sua adaptação e sobrevivência num ambiente hostil a feminilidade.
Embora sua mãe lhe desse alguns privilégios, estes eram eclipsados pelos comportamentos rudimentares dos seus irmãos.
Ela foi desafiada a ser forte e teve que desenvolver musculatura emocional e física.
Ela teve que brigar com meninos.
Ela aprendeu a jogar bola.
Ela aprendeu a se impor através de uma personalidade impactante. Se fosse diferente ela teria sido exterminada do meio dos capitães cavernas.
Ela aprendeu a ser da zoeira. E a zoar também.
Ela aprendeu a ser quase um menino, em suas brincadeiras, em seu modo de agir e em sua rudimentar forma de tratar os outros.
Ela se tornou uma mulher que não gostava de flores. 
Que não gostava de mi, mi, mi. 
Casca grossa.
E que, talvez por conta disso, deixe os conceitos de normalidade do que uma mulher deve fazer, serem questionados o tempo todo por sua mãe.

Mas lá no fundo, em seu DNA, há uma mulher que renasce todos os dias. 
Feminina. 
Com seus medos, inseguranças e dificuldades.
Delicada (há certa dificuldades de externalizar isso).
Embora sua musculatura emocional esteja adaptada ao mundo masculino, o seu coração bombeia fluxos feminino.
É uma irmã excelente.
É uma tia quase mãe.
E tenho certeza, se um dia quiser ser mãe, também fará um excelente trabalho com sua cria. 
Se não quiser, continuará sendo também excelente.

Que bom ter você como minha irmã. 
Obrigado pela sua participação em minha vida e pelas porradas indelicadas quando eu mais precisei.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Quero trazer a memória, aquilo que traz Esperança

Em meados do século 6 A.C, os babilônicos investiram contra o reinado de Israel e sitiou a cidade de Jerusalém que ficava envolta por muralhas. 
A ideia central era invadir a cidade, saquear seus pertences e levar cativo tudo o que tinham de bom.
A estratégia utilizada foi cercar a cidade sem permitir que nada entrasse ou saísse, assim eles não poderiam receber suprimentos e mantimentos vindos de fora. Em pouco tempo de cerco, a cidade começou padecer de uma fome severa e muitas pessoas começaram morrer de inanição. Os que ainda resistiam estavam fracos e debilitados, incapazes de lutar com o exército inimigo que invadiu a cidade, destroçou as pessoas e a sucumbindo à ruina. (...)
(...) Tudo o que sobrou foi um rastro de destruição, milhares de mortos e os poucos que sobreviveram foram deixados pra morrer de fome e pestilências. 
Dentre esses havia um homem chamado Jeremias que registrou suas amarguras em um livro chamado Lamentações. Ele narra, em meio ao seu estado devastador suas intensas agonias e inclusive sua vontade de um dia não ter nascido (...) 
Mas em certo momento ele se concentra numa frase: “Quero trazer a memória aquilo que me dá Esperança”.
Ele não poderia continuar pensando na desgraça, mas precisava pensar na Graça.
Ele não poderia continuar pensando na morte, mas na Vida.
Ele não poderia continuar pensando na destruição, mas na construção e reconstrução de tudo o que havia perdido.
Então ele passa a ter forças e vontade para continuar vivendo. E isso o ajuda a mantê-lo vivo, lúcido e resiliente para prosseguir em sua missão (...)

Assim como para o Jeremias, pensar nessa frase: Quero trazer a memória aquilo que me dá Esperança, também tem sido algo positivo pra mim nestes dias pandemia, de isolamento social, angústias e medos.

Tenho tentado pensar em coisas boas. 
Pensar em tempos bons.
Pensar que mesmo com cicatrizes, vamos sair dessa.
Pensar que somos capazes de aprender novas trajetórias, novos rumos, novos caminhos e de até criar um novo Mundo.

Pensar assim não quer dizer que a dor não exista, mas que estou disposto a dar primazia a coisas melhores.  
Pensar naquilo que faz ter Esperança me faz continuar vivendo e lutando pra reconstruir meu mundo, interior e exterior.
Pensar naquilo que traz Esperança é enxergar um futuro melhor pra nós e ter de volta nossos encontros encharcados de palavras afetuosas.
Pensar naquilo que faz ter Esperança é sentir um abraço caloroso mesmo a distância e poder olhar nos olhos e dizer que tudo isso vai passar.


Angelo

O que fazes aqui? A pergunta de Deus

E ali entrou numa caverna e passou ali a noite; e eis que a palavra do Senhor veio a ele, e lhe disse: Que fazes aqui Elias?

1 Reis 19:9

E sucedeu que, ouvindo-a Elias, envolveu o seu rosto na sua capa, e saiu para fora, e pôs-se à entrada da caverna; e eis que veio a ele uma voz, que dizia: Que fazes aqui, Elias?

1 Reis 19:13


O que fazes aqui é a pergunta de Deus para Elias.
Elias estava fugindo, com medo de morrer. Se sentindo só, sem ninguém para lhe socorrer. 
Ele (Elias) dizia, só restou a mim como profeta e a rainha Jezabel quer me matar.
Depois de caminhar quarenta dias e quarenta noites numa fuga alucinada, ele entra numa caverna. Precisa se esconder...
E eis que a palavra do Senhor veio a ele: Que fazes AQUI elias.
Depois da noite ele vai para a entrada da caverna; e eis que pela segunda vez veio a ele uma voz que dizia: “Que fazes aqui, Elias?*

Pra mim um dos pontos mais interessantes dessa passagem é justamente a pergunta que Deus faz: “O que faz aqui?”
O que faz aqui e não O que faz aí, mostra um Deus que está onde Elias está. 
É a pergunta de um Deus que está perto de quem sofre. 
É a pergunta de um Deus que não está indiferente ao sofrimento humano.

Estamos vivendo dias muito difíceis. Dias de pandemia. Dias de insegurança financeira, psicológica e isolamento.
Muitos estão doentes. Muitos perderam a vida ou um ente querido. 
Outros perderam seus empregos, perderam a renda.
Há famílias que estão vivendo em preocupação contínua sobre como vão pagar as contas.
O futuro tem se mostrado bastante incerto, alheio ao nosso controle.
Em momentos assim, é comum a angústia se instalar em nossos corações e fazer a gente perder o sono.

Mas parece que nos momentos de intenso sofrimento, angústia a gente é obrigado a desacelerar e prestar a atenção a uma Voz que ecoa em nosso coração e pergunta: O que você faz aqui?
Sim, Deus está contigo nas aflições e te pergunta: O que você está fazendo aqui?

Eu particularmente não sei o quê ou como responder a Deus. Mas saber que Ele está perto, me acalma e me faz continuar.

Boa semana a todos

Angelo

As razões de um nome

Olá, sou um Nome, 

posso me expressar como um significado,
ou conceito a qual a palavra é remetida, 
como uma imagem acústica da palavra falada, 
e também como a representação gráfica da palavra escrita. 

Sou um signo que foi escolhido para nomear um individuo ao nascer e acompanha-lo por toda sua existência. Minha representação gráfica é Ângelo, uma proparoxítona forte, acentuada e um ícone que etimologicamente foi destinado a acompanhar anjos, seres enviados para cumprir os desígnios de Deus e que orgulhosamente deu origem a palavra Evangelho, sou muito feliz por essa herança genética e cultural.  Mas tem algo que as vezes me entristece, é que ao ser designado e escolhido para dar nome ao meu avatar, seus pais não pensaram em semântica, sintática e nem respeitaram as normas cultas do bom português. Eu fui registrado oficialmente depois de quatro anos, e como se isso não fosse trágico, ainda cometeram um erro crasso ao me deixarem sem o circunflexo, isso mesmo, transformaram uma proparoxítona em paroxítona, algo extremante danoso aos ouvidos e a norma culta deste tão nobre idioma. E pra piorar este cara nem de longe se parece com um anjo, muito pelo contrário, é cheio de limitações, dificuldades e imperfeições. Mas, sendo sincero, ele não é de todo ruim, e tem algo que me traz contentamento e que eventualmente me deixa muito feliz. É que em alguns pontos de sua vida ele faz jus ao meu significado e representa bem minha imagem. Ele sabe que tem uma missão e que foi enviado para cumprir um desígnio e um propósito de Deus em seu tempo. Isso me deixa extremamente feliz e orgulhoso! Sinto que que minha razão de ser, está sendo bem representada por ele.   Ele não é um herói de sua geração, mas é um herói de si mesmo, um sobrevivente, consciente de suas fraquezas, mas que de tempos em tempos personifica este nobre nome, numa bela representação gráfica e acústica do que Deus espera dele. Ele não gosta de falar sobre isso e acho que não vai concordar com o que estou dizendo. Mas o texto e esta história é minha e esta é também é a minha percepção. 
Portanto Angelo, continue tentando ser o melhor que puder para honrar e respeitar o teu Nome.

Tu estás comigo!

Ainda que eu ande pelo vale escuro como a morte... - NVI
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra e da morte... - ALMEIDA

A narrativa do salmista Davi fala sobre a graciosa companhia de Deus.
Tu estás comigo

E porque Tu estás comigo eu não preciso de nada.
Porque Tu estás comigo eu posso descansar em verdes pastos.
Porque Tu estás comigo me sacio em águas tranquilas.
Porque Tu estás comigo minhas forças são renovadas.
Porque Tu estás comigo há um jantar completo.

Mas a Tua Graciosa Companhia não me imuniza contra as agruras da vida e não me exclui de dificuldades.
Eventualmente eu sei que vou caminhar por Vales de sombra e morte. 
Mas eu não fico no vale parado e absorto.
Eu ando e passo por ele... 
(...) Mesmo diante circunstâncias ruins eu continuo andando e caminhando por que Tu estás comigo e renova as minhas forças

Tu está comigo e não importa onde estiver ou aonde for, sei que Tua bondade e teu amor me seguirão todos os dias da minha vida. 

Assim, não importa o meu momento, se estou abastado e feliz ou em um vale de sombra e morte. 
Tu estás comigo, e independente do lugar que eu estiver, me sentirei como se estivesse no Teu templo.

Diante da vida ou da morte, eu descubro que não preciso de nada além de Ti e da Tua Graciosa Companhia e Doce Presença.


Abraços a todos

Angelo

terça-feira, 10 de abril de 2018

“A igreja tem feito muita coisa em nome de Deus que Deus não pediu para fazer”

Por Hideide Brito Torres

Kevin DeYoung, um jovem pastor norte-americano, comenta que podemos ter dois amigos, dois hobbies ou dois empregos. Mas não dois senhores, porque escravidão é uma coisa absoluta. Jesus ensina que não é possível servir a dois senhores, porque a gente acaba amando a um e desprezando o outro (Mateus 6.24). Ou colocando as coisas de um em primeiro lugar e relegando ao outro as segundas opções.

É interessante como coisas óbvias nos chocam. Sinto-me envergonhada em perceber o quanto em mim ainda se debate entre duas ideias, dois propósitos ou até mais! Como é fácil desviar-me do que é importante e dar valor ao secundário. Foi por isso que a Igreja se desviou muitas vezes da missão. Dividiu-se em partidos religiosos, assumiu posturas político-ideológicas de modo radical, perseguindo quem pensava diferente e envolveu-se em causas sociais que, embora importantes e pertinentes, não eram a sua missão principal. Assim, mitigou-se o anúncio do Evangelho, da necessidade do arrependimento, e da conversão para a salvação e a vida eterna em Jesus. 

Isso trouxe tantos problemas ao longo dos anos que até hoje estamos aqui, tentando acertar e ainda errando. Com nossos erros, fazemos pessoas sofrerem, nos afastamos do próximo e de Deus, damos um mau testemunho público ou recaímos nas temáticas dos sacerdotes e levitas que passam de largo (Lucas 10.25ss). Ou nos debatemos a fazer muitas obras, mesmo sem o crivo da fé (Tiago 2.14-26). Enfim, nos dividimos interiormente como pessoas e comunitariamente como corpo de Cristo. As divisões escandalizam. Os escândalos fazem com que as pessoas se afastem da fé. O afastamento leva à incredulidade. E a morte instala-se no lugar da vida plena que devíamos oferecer pelos méritos de Jesus, que morreu por nós.


O Pastor Kingspride, missionário metodista no Gana, nos lembrou recentemente numa visita ao Brasil que a igreja tem feito muita coisa em nome de Deus que Deus não pediu para fazer. Tem se tornado uma prestadora de serviços ao invés de uma agência da graça. Tem condenado como um tribunal ao invés de entender que a promessa diz que o Espírito seria derramado sobre toda a carne, e não apenas sobre as carnes que achamos mais pertinentes ou parecidas conosco. Que o Espírito de Deus está sobre lugares que a gente não admite e sobre pessoas com quem não gostaríamos de partilhar o Evangelho. Duramente, nos advertiu que Deus chamou os/as judeus/as para serem os/as portadores/as de suas boas-novas. Com a recusa daquele povo em abrir-se ao amor aos outros povos, resguardando só para si a aliança, Deus, em Cristo, levantou a Igreja. Mas bem pode ser que essa graça de sermos colaboradores e colaboradoras com Deus nos seja subtraída da mesma maneira, se também nos recusarmos a abrir nossa vida, coração e prática a amar ao próximo que Deus criou e não apenas o próximo que se parece conosco.

Tenho achado dura esta palavra. E é porque ela me confronta. Integridade é um estado de ser inteiro, sem rachaduras, sem manchas, ruga ou mácula. Um estado de uma pessoa capaz de alinhavar seu discurso e sua prática com a linha mesclada da coerência. Como isso é difícil! Prova disso é o quanto nós, como Igreja de Cristo, nos encontramos em um estado de tensão, de separação e de dúvida que não opera a graça e o amor de Jesus. O desespero daí resultante, como lembra Kierkgaard, é o pecado que não tem perdão, a blasfêmia contra o Espírito Santo, porque no fundo, no fundo, estamos a afirmar que Deus não pode fazer o que Ele se propôs nas Escrituras. Na prática, vivemos de modo oposto ao que pregamos. Nossa desintegração é visível aos olhos e escândalo para quem não crê. Como vencer esse pecado?

Acredito que um passo importante é a gente começar pelo básico: o arrependimento. Nos/as crentes, diz João Wesley, o arrependimento é o conhecimento de si como ser humano pecador diante de Deus. Reconhecemos que a desintegração dos nossos valores compromete a integridade do nosso serviço e do nosso testemunho. Corremos o risco da injustiça, do desamor, da exploração de posições ou do poder do discurso, minamos a fé e a esperança das pessoas, descuidamos da família, do mundo como obra de Deus e prestamos um desserviço ao Evangelho de Cristo.

Ao contrário, a integridade promovida pelo arrependimento assume a cada dia o caráter esperançoso e transformador da conversão. Kingspride nos mostrou em suas ministrações que Jesus era íntegro no propósito e na prática. Ele não quis ser rei nem aceitou honrarias no contexto judaico. Ele veio para levar as pessoas a uma experiência de salvação e se manteve fiel a este propósito de cumprir a vontade do Pai. Por isso, ele ensinava de modo a formar uma base sobre a qual a pregação poderia levar a uma resposta mais efetiva do ouvinte. Uma vez ensinado e tendo respondido à pregação, este ouvinte, homem ou mulher, poderia receber a cura de seu corpo ou alma enfermados. E depois de fazer isso, comovido pela multidão das ovelhas sem pastor, tocado pelo iminente prejuízo da colheita madura sem trabalhadores/as suficientes, Jesus compartilhou de si mesmo para gerar tais colaboradores/as (Mateus 9.35-38).

A igreja que não é íntegra em seu arrependimento, em seu caráter e em seu serviço pode colocar a perder todo o esforço de Jesus. O tempo de percebermos isso e de nos movermos para a unidade do corpo e para a integridade prática é urgente e é agora. Se discípulos e discípulas nos caminhos da missão servem com integridade, os valores do Reino aparecem em tudo o que fazem, porque não apenas fazem o que Deus mandou, mas fazem do jeito como Deus faria – gerando justiça, paz e alegria (Romanos 14.17). 

Nota: Publicado originalmente no Jornal Expositor Cristão de janeiro/2018. Acesse aqui. Reproduzido com permissão.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Nathalia e seus 18 anos - Congratulations

Quando soube que você viria eu senti medo.
Não qualquer medo, mas algo parecido com pavor.
Não me sentia preparado. Não sabia como cuidar de você - (na verdade nunca soube).
Já de muito enxergava minhas limitações ao longo dos meus vinte e dois anos de plena “maturidade”.
Não conseguiria protege-la num mundo jurássico cheio de trogloditas idiotizados por um sistema corrompido.
Por isso chorei algumas noites e alguns dias também.
(...) Então chegou o dia! 
- 10 de novembro de 1999 -
Depois de agonizar algumas horas na sala de espera do hospital a enfermeira me chama as 20:30 com você nos braços. 
BOOM!!!!! Você estava lá! Uma explosão de sentimentos.
Você estava lá. E agora?


(...) Cada fase que você atingia era um misto de alegria acrescida de uma profunda preocupação.

O tempo foi passando e eu fui aprendendo que na jornada da paternidade eu não estava só, havia mais Alguém... Onisciente, Onipresente e Onipotente, que Fazia sempre toda a diferença.
Era Ele quem de fato cuidava de você.
Também percebi que por mais que me esforçasse não conseguiria protege-la integralmente.
Foi então que descobri que minha função nessa (sua) história era somente a sua preparação e que você estava SOMENTE e TEMPORARIAMENTE sob meus cuidados e sob minha guarda.
Isso foi doído, mas também libertador. Aprendi que você não era minha, mas D’Ele.

(...) Eu, um “espartano” legítimo e rude, aprendi a ver através dos seus olhos um mundo de menina, um lugar que até então não conhecia. Lugar de delicadezas quase imperceptíveis.
Com você eu pude descobrir meu propósito de vida, minha razão existencial eclipsada nos cantos mais obscuros da minha alma.
Descobri que morreria por você todos os dias, mas também renasceria pra fazer as mesmas coisas todos os dias.

(...) Não sei se fui um bom pai (afinal, os parâmetros ((meu e seu)) são diferentes), mas queria que soubesse que sempre procurei fazer o melhor, na tentativa de fazer (junto com Deus) de você uma grande pessoa. 
Vejo que nosso trabalho (Deus e eu) está dando certo.
Você se tornou alguém muito especial.

Hoje você faz dezoito. Uma idade cheia de símbolos e perspectivas diferentes. Um fim e um começo.
Novas etapas, lutas, sonhos, avanços e realizações.
Não sei precisar por quanto tempo acompanharei seu progresso, mas saiba que o que fiz não é nada perto do que Deus faz.
Não se intimide.
Não tenha medo.
Avance.
Prossiga.
Cante.
Trabalhe muito.
Estude muito.
Aprenda o tempo todo.
Arrisque.
Ame.
Faça a diferença.

Neste 10 de novembro tão especial, agradeço a Deus pela oportunidade tê-la sob meus cuidados. 
Espero estar pronto quando você estiver.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

A igreja e as igrejas: reflexões eclesiológicas à luz da história do cristianismo


Uma questão de permanente interesse para os cristãos é o conceito de igreja, seu significado, sua abrangência e seus limites. O Novo Testamento usa a palavra ekklesia tanto no singular quanto no plural; ou seja, para referir-se a uma comunidade cristã específica — uma igreja local (Mt 18.17; At 8.1; 14.23; Rm 16.5; 1 Co 1.2; 4.17; Fp 4.15; Cl 4.15, 16; Ap 2.1) ou a uma pluralidade dessas comunidades, geralmente em uma determinada região (At 15.41; Rm 16.4, 16; 1 Co 7.17; 2 Co 8.1; Gl 1.22; 1 Ts 2.14; 2 Ts 1.4; Ap 1.4). Mais intrigante, e certamente mais complexo, é o uso do termo no singular com um significado coletivo, com referência a uma realidade mais ampla e mais profunda, como é o caso da passagem clássica de Mateus 16.18. Esse uso teologicamente mais denso do termo também pode ser visto em textos como Atos 20.28 e em várias passagens de Efésios e Colossenses (Ef 1.22, 23; 3.10, 21; 5.23-32; Cl 1.18, 24). 

Mas o que é afinal “a igreja” nesse sentido mais abrangente e mais profundo? O Novo Testamento parece dar uma dupla resposta a essa pergunta. Por um lado, a igreja é uma realidade espiritual e mística, o corpo de Cristo, e como tal é invisível aos olhos humanos (Ef 1.23; 2.16; 4.4, 12, 16; Cl 1.18, 24; 2.17, 19; 3.15). Por outro lado, em um sentido mais concreto e palpável, esse corpo é o conjunto de todos os cristãos (Rm 12.4, 5; 1 Co 10.17; 12.12-27; Ef 3.6; 5.30). Nesta segunda acepção, o Novo Testamento utiliza várias outras figuras para designar a igreja: povo de Deus, família, edifício, rebanho, lavoura de Deus e outras. Em nenhum desses dois aspectos neotestamentários o termo “igreja” refere-se a uma estrutura, a uma instituição, mas é sempre uma realidade invisível, o corpo místico, ou visível, o conjunto dos fiéis.



Igreja institucional

No final do primeiro século e início do segundo, começou a surgir a idéia de que a igreja é uma instituição e que essa instituição consiste essencialmente no colegiado dos seus líderes. Esse foi um período ao mesmo tempo fértil e conflitivo para o cristianismo — um período em que os cristãos precisaram definir com mais clareza a sua identidade diante de múltiplos desafios internos e externos. Entre os desafios internos estava o surgimento de interpretações distintas e por vezes divergentes da fé cristã. Ou seja, o movimento cristão não era monolítico, uniforme ou homogêneo, mas caracterizava-se por uma notável diversidade.

Diante da existência de grupos dissidentes como os docetistas, os gnósticos, os marcionitas, os montanistas e outros, logo surgiu a questão: Onde está a igreja verdadeira e como identificá-la? A resposta foi o que se convencionou chamar de “igreja católica”, expressão essa que surge pela primeira vez na literatura conhecida numa carta do bispo Inácio de Antioquia datada aproximadamente do ano 110. A “igreja católica” passou a ser uma designação da igreja majoritária, do cristianismo normativo, ortodoxo, fiel ao ensino de Cristo e dos apóstolos, em contraste com os movimentos dissidentes, considerados falsos ou heréticos. Essa “igreja católica” do segundo século caracterizava-se por três elementos essenciais: a aceitação de um conjunto de livros tidos como divinamente inspirados (as Escrituras Hebraicas e o cânon do Novo Testamento), a declaração formal dos pontos centrais da fé cristã (o credo, geralmente em forma trinitária) e especialmente a concentração da autoridade nas mãos de um único líder em cada igreja local (o bispo monárquico). Associado a isso, surgiu o conceito da sucessão apostólica.

O bispo, sucessor direto dos apóstolos, passou a ser visto como o guardião tanto da unidade quanto da ortodoxia da igreja. A igreja estava presente onde o bispo, o representante de Cristo, estivesse presente. E o conjunto de todos os bispos constituía a igreja no sentido mais amplo. Quem estivesse em comunhão com os bispos estava na igreja; quem não estivesse em comunhão com os bispos, estava fora da igreja. A partir daí, a identificação da igreja com a hierarquia eclesiástica passou a ser cada vez mais acentuada.



Grupos dissidentes

Uma situação particularmente interessante surgiu no quarto século, no contexto da última perseguição movida contra os cristãos. A partir do ano 303, o imperador Diocleciano e depois dele o seu sucessor Galério tentaram eliminar o cristianismo do Império Romano. Uma das medidas adotadas foi a destruição de cópias das Escrituras. Os líderes eram pressionados a entregar os manuscritos, e aqueles que o fizeram ficaram conhecidos como “traditores” (isto é, “entregadores” e, por extensão, traidores). Aconteceu que, numa eleição episcopal realizada no norte da África, um dos bispos consagrantes do bispo eleito foi acusado de ser um “traditor”. Isso deu início ao chamado cisma donatista (de Donato, um dos líderes do movimento), que resultou numa igreja separada da Igreja Católica e paralela a esta. Na região da Numídia havia, nas mesmas cidades, igrejas católicas e donatistas lado a lado. Foi somente no início do quinto século que o cisma donatista foi eliminado mediante intervenção estatal, medida essa apoiada pelo grande bispo e teólogo Agostinho. Em suma, considerou-se que a igreja donatista não era uma igreja verdadeira, não merecia o nome de igreja.

A partir de então, a Igreja Católica, agora poderosa e aliada do Estado romano, passou a combater sistematicamente qualquer dissidência religiosa. A igreja tornou-se uma organização cada vez mais coesa, monolítica, centralizada no clero e especialmente na figura do bispo de Roma, agora elevado à condição de líder supremo, o papa. Surgiu gradativamente, ao longo da Idade Média, o conceito de cristandade, a visão de uma sociedade unificada tanto política quanto religiosamente, tendo no seu topo as figuras dos reis e dos bispos, do imperador e do papa. Os que ousassem divergir eram duramente reprimidos, como aconteceu com os cátaros, uma seita sincrética do sul da França, que foi eliminada em grande parte por uma série de cruzadas no início do século 13. Foi nesse período que sistematizou-se a punição dos hereges com a criação da Inquisição papal ou Santo Ofício.

Se os cátaros dificilmente poderiam ser considerados seguidores do cristianismo histórico, em face das suas convicções gnósticas e maniqueístas, tal não se poderia dizer de outro movimento francês do século 12, os valdenses (do nome do líder inicial, Pedro Valdés), inicialmente conhecidos como os “homens pobres de Lião”. Caracterizados pelo seu apego às Escrituras e por um estilo de vida simples, os valdenses foram igualmente reprimidos, somente sobrevivendo por terem se refugiado em alguns vales remotos dos Alpes no norte da Itália. O mesmo se pode dizer do movimento iniciado pelo sacerdote inglês João Wycliffe e seus seguidores, os lolardos, no final do século 14. A crítica da igreja medieval com base nas Escrituras, empreendida por Wycliffe, encontrou eco em um sacerdote checo, João Hus, que acabou morto na fogueira pelo Concílio de Constança, em 1415. Seus seguidores, os hussitas ou irmãos boêmios, mais tarde conhecidos como irmãos morávios, constituíram um movimento extremamente equilibrado, bíblico e cristocêntrico, embora estivessem excluídos da igreja oficial. Com o advento da Reforma Protestante, tanto os valdenses quanto os irmãos morávios abraçaram o protestantismo, sendo, portanto, igrejas evangélicas anteriores à Reforma. Todos esses grupos tiveram negado o status de igrejas, embora certamente o merecessem.



A posição dos reformadores

A Reforma Protestante foi, entre outras coisas, um protesto contra a noção de que uma determinada confissão cristã tem o direito exclusivo ao título de igreja. Antes, os reformadores afirmaram que, onde quer que o povo de Deus se reúna para ouvir a pregação fiel das Escrituras e receber os sacramentos bíblicos aí está presente a igreja. Com essa nova mentalidade, o protestantismo abriu as portas para a diversidade dentro do cristianismo. Como a igreja não se reduz a instituições ou estruturas eclesiásticas, os protestantes aceitaram com relativa facilidade a existência de diferentes ramos no seu movimento: inicialmente luteranos, calvinistas, anabatistas e anglicanos; posteriormente, batistas, congregacionais, metodistas e muitos outros. Na cosmovisão protestante não existe a distinção entre clero e leigos — todos são “leigos” (do grego laós, ou seja, “povo”, o povo de Deus) e ao mesmo tempo sacerdotes (1 Pe 2.9, 10).

Ainda que as divisões protestantes tenham seus aspectos tristes e condenáveis, elas implicam o reconhecimento tácito de que nenhum grupo pode arrogar a si o direito de ser a manifestação plena e exclusiva da igreja de Cristo. Nenhuma igreja evangélica, por mais bíblica que se considere, pode, em sã consciência, considerar-se “a igreja”, à exclusão de todas as demais. Existem muitas “igrejas”, no sentido de agremiações cristãs, mas uma só “igreja”, no sentido mais profundo da palavra, o corpo espiritual e invisível de Cristo ou o conjunto de todos os verdadeiros seguidores de Cristo, que inclui pessoas de todas as igrejas, sejam elas protestantes, católicas ou ortodoxas, e até mesmo indivíduos que, por algumas razões excepcionais, não estão filiados a nenhuma denominação cristã. Somente Cristo conhece os que são seus.



Dois exemplos recentes

Diante disso, é estranho que certos evangélicos continuem insistindo na tese de que a sua agremiação religiosa seja “a igreja” por excelência, ou, pior ainda, que uma determinada estrutura eclesiástica possa ser assim considerada. Ainda recentemente, o líder de uma denominação brasileira, referindo-se a um grupo que entrou em conflito com a cúpula da denominação, disse que aquele grupo estava rebelado contra a noiva de Cristo e por isso sujeitava-se a conhecer a ira do Cordeiro, o noivo da igreja. Acrescentou que rebelar-se contra a igreja tipifica a atitude daqueles que se rebelam contra Deus. Essas colocações revelam um lamentável equívoco quanto ao conceito bíblico e evangélico do que é a igreja na sua expressão mais elevada: não é a denominação, a estrutura, a instituição humana, e muito menos a sua liderança atual, e sim o corpo de Cristo ou o povo de Deus, que transcende os limites de qualquer agremiação religiosa. 

No ano 2000, protestantes do mundo inteiro ficaram surpresos com uma declaração oficial emitida pelo Vaticano afirmando ser a Igreja Católica Romana a única igreja verdadeira. O Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, condenou a aplicação da expressão “igrejas irmãs” às igrejas protestantes (elas seriam somente “comunidades eclesiais”) e o documento Dominus Iesus declarou que as igrejas que não possuem um “episcopado válido e a substância integral e genuína do mistério eucarístico não são igrejas no sentido apropriado”. Líderes denominacionais de todos os matizes teológicos fizeram ouvir o seu protesto, mostrando que alguns pontos controvertidos do século 16 continuam relevantes no início do terceiro milênio. Para os herdeiros da Reforma a questão é clara: a igreja invisível é uma realidade que somente Deus conhece; já a igreja visível é, acima de tudo, o povo de Deus, o conjunto dos fiéis, onde quer que estejam. Nas palavras do apóstolo dos gentios: “Vós sois corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo” (1 Co 12.27).


Alderi Souza de Matos

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O Amor transforma o trabalho em Ministério

Em Gênesis encontramos uma das mais puras declarações de amor humano: “Então Jacó trabalhou sete anos por Raquel, mas lhe pareceram poucos dias, pelo tanto que a amava” (Gn 29.20). O trabalho escravo pode se tornar um trabalho por amor. O amor transforma todo tipo de trabalho em ministério.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Fé e Crer qual diferença?

Já faz algum tempo que defendo a ideia de que fé e crer possuem significados diferentes. Claro! sei que a maioria das pessoas irão torcer o "bico" num semblante de... como assim?
Costumamos ouvir muita gente dizendo o tempo todo que têm fé e que creem, trocando as palavras e seus conceitos e isso dificulta bastante a compreensão. Mas o que vejo normalmente são pessoas que falam de fé como se fosse esperança. Exemplo: tenho fé que amanhã será melhor, ou tenho fé que as coisas vão dar certo, ou ainda tenho fé que você conseguirá seus objetivos. Penso que este tipo de pensamento ou fala não tem nada a haver com fé, isso é esperança e a Bíblia deixa claro que existe uma grande diferença entre fé e esperança. Logo, se existe diferença entre esperança a argumentação que comumente utilização pode ser num certo momento equivocada.
Mas então o que é crer e o que é fé?
Uma síntese dessa argumentação obtive recentemente numa conversa com alguns adolescentes o que me deixou bastante satisfeito.
Crer é acreditar que Deus pode fazer qualquer, em qualquer lugar e em qualquer tempo. Já fé é colocar minha vida nas mãos de Deus para que ele possa fazer o que quiser, quando quiser e como quiser.
Fé não é determinar profeticamente o que Deus deve fazer por mim ou por alguém. Fé não viver crendo que as circunstâncias irão ficar diferentes. Fé é dispor a minha vida de forma que ela seja moldada aos padrões de Deus e não do mundo. Fé é caminhar com Deus sabendo que a vontade que deve prevalecer é a Dele e não a minha. Fé não é algo que se tem, mas que se vive, assim como está escrito que o justo viverá da Fé.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Restauração... uma história

A história da restauração é mais longa do que a história da civilização. Ela começa na eternidade e termina na eternidade. Embora normalmente a medicação de qualquer doença seja posterior ao diagnóstico, no caso da restauração do gênero humano e da própria criação, a solução do problema do pecado foi arquitetada antes mesmo da entrada do pecado no mundo. Quem afirma isso são dois homens de muito peso na história da igreja. Em sua carta aos Efésios, Paulo declara: “Muito antes que ele [Deus] estabelecesse os fundamentos da terra, ele já pensava em nós e nos escolheu como alvo do seu amor, para nos fazer completos e santos [para nos restaurar] por meio desse amor” (Ef 1.4). Pedro, por sua vez, afirma: “Vocês foram libertados [restaurados] pelo precioso sangue de Cristo, que era como um cordeiro sem defeito nem mancha. Ele foi escolhido por Deus antes da criação do mundo e foi revelado nestes últimos tempos em benefício de vocês” (1Pe 1.19-20).

“A história da restauração continua no Éden”, logo após a queda do ser humano. Deus faz ouvir a sua voz, declara guerra entre a serpente (que representa o Maligno) e a mulher (que representa a humanidade) e acrescenta que a descendência da mulher (uma referência clara a Jesus) esmagaria a cabeça da serpente, e esta feriria o calcanhar do descendente da mulher (uma referência clara à crucificação de Jesus). A restauração viria por meio de Jesus Cristo. Isso justifica a expressão usada por João Batista para apresentar publicamente o Senhor Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

“A história da restauração continua na história do dilúvio” (um evento registrado não só no Antigo Testamento, mas também na memória coletiva de alguns povos primitivos). Porque todo mundo só pratica o mal, porque a terra está cheia de pecado e violência, porque a vida se tornou impossível sobre a face da terra, Deus resolve restaurar a terra, eliminando toda aquela geração por meio de uma enchente de proporções gigantescas (a água subiu sete metros acima das mais altas montanhas). Com os oito únicos sobreviventes (a família de Noé), há um novo princípio e uma nova história (Gn 6.1--9.29).

“A história da restauração continua com a chamada de Abraão”. Esse homem, casado com uma mulher estéril, deixa pai, mãe e sua terra natal e sai “sem saber para onde ir” (Hb 11.8). Outra vez, Deus resolve começar tudo de novo. Por meio daquele homem, o Senhor iria formar uma nação que teria princípios de conduta diferentes e uma fé diferente. Seria um povo que cultuaria e serviria o Deus original, o Deus que havia criado os céus e a terra e tudo o que neles existe, o Deus puríssimo, sapientíssimo, amantíssimo, graciosíssimo, misericordiosíssimo, justíssimo e terribilíssimo. Mas não em benefício próprio. Esse povo deveria ser o instrumento por meio do qual todas as outras nações conheceriam o Senhor e seriam conduzidas a ele, no tempo e no espaço. Desse povo originaram-se as Escrituras Sagradas e no meio dele o Filho de Deus tornou-se também o Filho do Homem.

“A história da restauração continua e atinge um dos seus ápices maiores quando uma jovem fica grávida sem ter relações com homem algum” (Lc 1.26-38) e quando, ao dar à luz a criança, um anjo do Senhor aparece no céu de Belém e proclama: “Estou aqui a fim de trazer uma boa notícia para vocês, e ela será motivo de grande alegria também para todo o povo! Hoje mesmo, na cidade de Davi, nasceu o Salvador [o Restaurador] de vocês -- o Messias, o Senhor!” (Lc 2.9-11). Em nenhuma época anterior, a história da restauração foi tão viva, tão visível, tão gloriosa e tão emocionante! Pois foi nesse espaço de tempo que Jesus tomou sobre si toda a nossa sujeira e culpa, purgando-as na cruz. Foi nesse espaço de tempo que o véu que separava o ser humano de Deus se rasgou por completo (Mt 27.51).

“A longa e bem-sucedida história da restauração continua com o Pentecostes”, quando o Espírito Santo vem para ficar, quando o Israel de Deus passa a ser a Igreja e começa a reunir judeus e não judeus, quando a Igreja é encarregada de pregar as boas novas tanto aqui como ali, tanto a judeus como a gentios, tanto ao pobre como ao rico, tanto ao homem como à mulher, tanto ao doutor como ao analfabeto -- até que o Senhor volte.

A longa e bem-sucedida história da restauração só vai terminar quando Jesus voltar, quando os mortos ressuscitarem, quando os vivos forem transformados, quando os céus e a terra que agora existem forem destruídos pelo fogo, quando a antiga serpente, a morte e o mundo dos mortos forem lançados no lago de fogo e enxofre e quando começarmos a usufruir dos novos céus e da nova terra!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Deus dá nós recebemos

[Vocês] receberam uma fé tão preciosa como a nossa. (2Pe 1.1b)
A fé salvadora não é uma conquista meritória, fácil ou humana. Ela não nasce aqui: ela vem de cima. Não é um prêmio: é uma graça. O pecador não planta nem colhe a fé salvadora: ele a recebe de presente. Não é o ser humano que levanta a sua mão para apanhar a fé salvadora: é Deus que abaixa a sua mão para entregar a fé salvadora. “A salvação não é o resultado dos esforços de vocês” (Ef 2.9). Pela graça de Deus é que somos salvos, por meio da fé. A graça de Deus gera tanto a fé salvadora quanto a salvação. O máximo que podemos fazer é desejar, suplicar e estender as mãos em forma de concha para que a bondade de nosso Deus a coloque ali.
É assim que Pedro inicia a sua Segunda Carta: “Eu, Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, escrevo esta carta para vocês que, por causa da bondade do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam uma fé tão preciosa como a nossa” (2Pe 1.1).
Na soteriologia cristã, o verbo receber tem supremacia sobre o verbo apanhar, como a palavra fé tem supremacia sobre a palavra obras. Jesus veio para o seu próprio povo, mas os seus não o receberam. Salvaram-se aqueles que creram nele e o receberam (Jo 1.11-12). João Batista acertou em cheio quando declarou: “Ninguém pode ter alguma coisa se ela não for dada por Deus” (Jo 3.27). E a maior de todas as dádivas de Deus é o seu próprio Filho: “Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
— O presente não se compra: recebe-se!

Sem Exceções

No que diz respeito aos meus próprios pecados, é bastante segura (ainda que incerta) a aposta de que minhas desculpas não são tão boas quanto eu imagino.
No que diz respeito aos pecados dos outros contra mim, é seguro (ainda que incerto) apostar que suas desculpas são melhores do que eu imagino.
Por isso temos de começar por prestar atenção a tudo que possa mostrar que o outro não merece tanta censura quanto nós achávamos. Mas, mesmo se ele for absolutamente culpado, continuamos tendo de perdoá-lo; e ainda que noventa e nove por cento da sua aparente culpa possa ser explicada por desculpas realmente convincentes, o problema do perdão começa com aquele um por cento de culpa que ainda resta. Desculpar o que pode realmente ter uma boa desculpa não é caridade cristã, é apenas justiça. Ser cristão significa perdoar o indesculpável, porque Deus perdoou o indesculpável em você.
Isso é duro. Talvez não seja tão duro quanto perdoar uma única grande injúria. Mas como seríamos capazes de perdoar as persistentes provocações do cotidiano (continuar perdoando a sogra mandona, o marido tirano, a esposa implicante, a filha egoísta e o filho salafrário)? Só mesmo, acredito eu, colocando-nos em nosso lugar, acreditando no que dizemos todas as noites em nossas orações: “Perdoa os nossos pecados, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. O perdão não nos é oferecido em nenhum outro termo. Recusá-lo significa recusar a graça de Deus para nós mesmos. Não há indícios de exceções, e Deus sabe bem o que está falando.

Falsidade

No passado apareceram falsos profetas no meio do povo, e assim também vão aparecer falsos mestres entre vocês. (2Pe 2.1a)
Além de constante, a falsidade é uma presença embaraçosa, incômoda e aborrecida. O pior é que além de profetas falsos, há irmãos falsos, testemunhas falsas, apóstolos falsos, pastores falsos e até falsos cristos. Se isso ainda não fosse o bastante, há lábios falsos, línguas falsas, palavras falsas, escrituras falsas, visão falsa, motivos falsos, nomes falsos, acusações falsas, notícias falsas, amor falso, juramento falso, elogios falsos, amigos falsos e até humildade falsa. É um oceano de falsidades!
Para agravar a situação, o falso parece autêntico, o lobo parece a vovozinha, o amargo parece doce, o feio parece bonito, o fedido parece cheiroso, a treva parece luz, o inimigo parece amigo, o adversário parece um anjo de luz.
Essa confusão toda me obriga a tomar algumas providências. Tenho que conhecer a diferença entre o falso e o verdadeiro. Tenho que ser ora desconfiado ora não, tenho que ser ora maldoso ora não, tenho que ser ora cético ora não. Não devo errar, não posso errar. Nem de um lado nem de outro. Não posso ser astuto como as serpentes o tempo todo nem simples como as pombas o tempo todo. Há tempo para tudo!
Nesse oceano de falsidades, para cometer acertos e não cometer desacertos, preciso de discernimento. Para obter sabedoria para tanto, preciso ser humilde suplicante como Salomão: “Dá-me sabedoria para que eu possa… saber a diferença entre o bem e o mal” (1Rs 3.9).
— Só Deus pode me mostrar a diferença entre os que servem e os que não servem!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

20 anos de contentamento

Quanto é necessário para se sentir pleno, realizado? O que preciso para viver contente? Por que vivo num estado crônico de descontentamento? O salário está sempre aquém das minhas necessidades, o corpo sempre está em desacordo com o que quero, e por aí vai. Porém, a pergunta que sempre faço e que não encontro resposta é: Qual o limite? Quanto é necessário para estar contente?


Sou incapaz de lidar com o sucesso e o fracasso, com as conquistas e derrotas. Não compreendo o significado da espera, o valor da frustração. Tenho grande dificuldade de me ajustar às mudanças, principalmente quando elas me colocam, mesmo que temporariamente, em situações difíceis.



A ansiedade sempre foi um grande obstáculo ao meu contentamento. Tal dificuldade encontra-se presa nas memórias do meu passado e nas incertezas do futuro. Enquanto me debato com o passado e o futuro, o presente é dominado pela ansiedade.


De tempos em tempos, desacelero. Paro. Respiro fundo. Busco com olhar contemplativo sentir toda bondade de Deus derramada sobre mim. Nessas horas as lembranças de algumas pessoas eclodem em minha mente e entre as principais está a senhora Marisa, minha eterna namorada.

Hoje 11 de junho de 2014 celebramos 20 anos de namoro. Ainda me lembro do seu beijo, da noite fria, da cor do seu vestido, dos cachos de seus cabelos, do semblante de menina e da intensa emoção que senti naquela noite que me deixou plenamente contente e realizado.

Sempre nesta data tão especial, percebo o quão bem você me fez e ainda me faz e faz parte de tudo o que preciso para viver contente e satisfeito.


Te amo!