quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Sonho

Sonhei certo dia que estava entrando em uma igreja. A entrada dela era um portão grande, feito de carvalho, bem antigo. Suas paredes eram sólidas. Bem sólidas, grossas, feitas de pedra. Pareciam paredes de castelo medieval de tão fortes, sólidas e seguras. Mas essa igreja, que mais se parecia uma catedral de tão grande, era um lugar insalubre, pois não havia espaço para a entrada de luz. Não tinha iluminação interior, nem de velas. Apenas um púlpito feito para caber só um modelo de Bíblia, juntamente com um hinário devidamente autorizado. Os bancos eram de madeira, com direito a porta-copos de ceia e genuflexório acolchoado, para não machucar os joelhos. Ao chegar perto das paredes, vi que, em cada uma das pedras, havia algo escrito. Umas diziam “única visão teológica correta”, outras diziam “estatutos e regulamentos”, e em outras ainda estava escrito “quem não é por nós, é contra nós”. No sonho, ao começar o culto, vi que a plateia era formada apenas de manequins, desses de vitrines de lojas de roupas. Vi que o pastor também era um manequim, com exceção dos olhos, estes humanos, mas que choravam muito. Em momento nenhum vi Jesus naquele lugar. Quis sair logo daquele ambiente claustrofóbico e agonizante.

No sonho, fui a outra igreja. Era muito diferente da primeira. Também era muito grande, mas havia apenas uns panos furados servindo como paredes. Não havia portas, então qualquer um podia entrar e sair. Em vez de bancos, almofadas no chão. Não havia púlpito, já que não tinha Bíblia nem hinário. Era um ambiente de festa o tempo todo. Algo muito cansativo, por fim. Notei que nos panos também havia coisas escritas. Ao chegar perto, li “honra ao nosso líder e a Deus, que foi esperto em colocá-lo entre nós”, “somos livres dentro daquilo que a liderança afirma ser seguro”, “quem não é por nós, é contra nós”. O engraçado é que esta última frase fora encontrada na igreja anterior. Ao começar a concentração (há muito o termo “culto” saiu de moda nessa igreja), vi que a plateia também era formada de bonecos. Mas não eram manequins de vitrine, e sim aqueles bonecões de posto de gasolina, que ficam agitando os braços o tempo todo. O pastor também era um bonecão de posto, mas tinha olhos humanos e que estavam chorando. Da mesma forma, não vi Jesus por ali. Saí correndo.

Entrei numa terceira igreja. Suas paredes eram sólidas como a primeira, mas havia grandes e abundantes janelas, que permitiam a entrada da luz. Suas paredes protegiam o povo, mas não os sufocava como na primeira. Em vez de bancos de madeira, havia almofadas no chão como na segunda igreja. Isso permitia um ambiente mais informal, mas não de eterna festa irresponsável, como visto anteriormente. Vi que havia frases escritas nas paredes. Mas eram bem discretas, e todas diziam o seguinte: “retorno ao Evangelho simples do Deus simples”. Na hora em que começou o culto, vi que a plateia era formada de gente. Mas alguns ainda tinham partes de manequim. Outros, partes de bonecão de posto. O próprio pastor tinha partes de bonecão e de manequim. Mas ali ele não chorava. Pelo contrário, vi em seu rosto um misto de alegria e alívio. Além disso, vi naquela terceira igreja algo maravilhoso: Jesus estava ali, cuidando daquelas pessoas, retirando cuidadosamente as partes de manequim e de bonecão de posto, trocando por partes saudáveis de gente.

Logo acordei. Não acreditava direito no que tinha sonhado. Corri para a internet procurando alguma pista sobre a realidade deste meu sonho. Logo me deparei com notícias de um bonecão de posto amealhando muito dinheiro para “evangelizar” e de um manequim lançando um projeto semelhante. Então vi que meu sonho não era apenas uma descarga dos meus neurônios. Foi um aviso. Jesus está vendo o estado da igreja brasileira e logo restaurará a sanidade de seu povo, deixando para trás os bonecões, os manequins, suas estruturas e festas perenes. Pude, enfim, voltar a dormir tranquilo.

sábado, 14 de agosto de 2010

Milagres?

Somos um povo alegre e festeiro o ano todo, mas é por ocasião do Natal e da Páscoa, que a maioria das famílias brasileiras passa momentos especialmente agradáveis; é quando visitas de parentes e amigos, decoração especial e mesas fartas tornam palpável o aconchego festivo que se instala em nossos lares. O clima de festa de fato se justifica, pois, embora às vezes passe desapercebido, as duas datas existem para a comemoração de dois grandes feitos inusitados de Deus. No Natal comemoramos o nascimento de Jesus, no qual Deus “tornou-se homem e viveu aqui na Terra entre nós, cheio de amor e perdão, cheio de verdade”.1 Na Páscoa recordamos um evento absolutamente extraordinário, resumido por Simão Pedro em uma de suas célebres frases: “Deus ressuscitou este Jesus, e todos nós somos testemunhas disso”.2

Mesmo assim, para muitos o cristianismo é pedra de tropeço justamente por resultar de uma fé alicerçada em feitos inusitados de Deus, ou milagres, entre os quais os do Natal e da Páscoa são os mais significativos. Foram eventos marcantes – acontecimentos que selaram a fé cristã como única. O problema é que milagres parecem pertencer a uma visão de mundo estranha, pré-científica, supersticiosa, talvez adequada para a Antiguidade ou Idade Média, mas não para hoje.

Ceticismo com milagres já existiu na Antiguidade. Sua manifestação contemporânea, porém, tomou forma durante o Iluminismo. O filósofo David Hume (1711-1776), um dos primeiros mentores do ceticismo atual, dizia, referindo-se ao cristianismo, que “nossa mais santa religião é fundamentada na fé, não na razão”, completando em tom de deboche que “a religião cristã não somente foi inicialmente atendida com milagres, mas até este dia não pode ser crida por uma pessoa razoável sem um milagre. Simples razão é insuficiente para convencer-nos da sua veracidade; e quem é movido por fé para aceitá-la, está consciente de um milagre contínuo em sua própria pessoa, que subverte todos os princípios de seu entendimento, e dá-lhe uma determinação para crer o que é o mais contrário ao costume e à experiência”.3

Será que, como propalado por Hume e outros, a fé cristã depende de uma “subversão dos princípios do entendimento”? É esclarecedor ler o que o físico Alessandro Volta (1745-1827, homenageado no Volt, a unidade de tensão elétrica do Sistema Internacional de Unidades) tem a dizer sobre o assunto: "Submeti as verdades fundamentais da fé a um estudo minucioso. Li as obras dos apologetas e de seus adversários, avaliei as razões a favor e contra e assim obtive argumentos relevantes que tornam a religião [bíblica] tão digna de confiança ao espírito científico que uma alma com pensamentos nobres ainda não pervertida por pecado e paixão não pode senão abraçá-la e afeiçoar-se a ela".4

Como explicar esta enorme diferença entre as convicções de Hume e de Volta? C.S. Lewis (1898-1963), professor da Universidade de Cambridge e criador de “Narnia”, aponta o problema de Hume: “É claro que devemos concordar com Hume que, se ...[milagres] jamais aconteceram, então realmente nunca aconteceram. Infelizmente, só sabemos que a experiência contra eles é uniforme se conhecemos que todos os relatos sobre eles são falsos. E só podemos saber que todos os relatos são falsos se já sabemos que milagres jamais ocorreram. Na verdade estamos argumentando num círculo vicioso”.5

G. K. Chesterton, um dos mais prolíficos escritores ingleses do século 20, arremata: “Surgiu de algum modo a ideia extraordinária de que os descrentes de milagres os analisam com frieza e justiça, ao passo que os crentes em milagres os aceitam apenas em conexão como algum dogma. O fato é totalmente o contrário. Os que creem em milagres os aceitam (com ou sem razão) porque têm provas deles. Os que não creem neles os negam (com ou sem razão) porque têm uma doutrina contra eles... Somos nós, os cristãos, que aceitamos todas as provas reais – são vocês, os racionalistas, que refutam as provas reais e são obrigados a fazê-lo pelo seu credo”.6

O ceticismo debochado do filósofo Hume é, pois, insustentável. Cientistas cristãos como Volta, sabendo que milagres são eventos extraordinários com significância religiosa, operados por Deus e inacessíveis ao método científico, não têm problemas com eles, pois sabem que não é sua tarefa explicá-los; limitam-se a verificar evidências de sua ocorrência. Francis Collins, cientista chefe do Projeto Genoma Humano, confirma este entendimento: “Eu não tenho problemas com o conceito que milagres podem ocasionalmente ocorrer em momentos de grande significado, onde há uma mensagem sendo transmitida a nós por Deus onipotente. Mas como cientista adotei padrões muito elevados para milagres”.7

Por outro lado, um cristão algumas vezes se pergunta onde estão hoje todos aqueles milagres relatados na Bíblia e qual sua relevância para nós. Nessas ocasiões convém recordar como Asafe, o cantor, se dirigiu a Deus numa frase que expressa uma certeza experimentada e compartilhada por muitas outras pessoas: “Deus, eu lembrarei dos teus feitos maravilhosos! ...Tu és o Deus que faz milagres”.8

Quanto mais presente tivermos Deus como um Deus que opera também coisas inusitadas, mais confiantes estaremos ao enfrentarmos tempos difíceis. No outro extremo há cristãos pós-modernos que esperam de Deus uma solução para cada dificuldade por meio de milagres sob encomenda e medida. A Bíblia não induz a tal expectativa. Ela ensina que Deus cuida de nós e manifesta seu cuidado conosco até mesmo nas pequenas coisas do dia-a-dia, mas que seus pensamentos e ações estão muito acima dos nossos.9 Em resumo, no caminhar constante com Deus, o cristão reconhece de forma humilde e grata que tudo de bom provém de Deus e que ele é “socorro que não falta em tempos de aflição”.10 Pois fé cristã alicerça-se nos milagres de Deus, mas é fé em Deus; não é fé no poder de Deus, nem nos milagres de Deus.

Notas
1. O Livro, em João 1.14.
2. Nova Bíblia na Linguagem de Hoje, em Atos 2.32.
3. David Hume, Enquiry Concerning Human Understanding.
4. Traduzido de J. Gutzwiller, Das Herz etwas zu wagen, Friedrich Bahn Verlag, 2000. Também citado em K.A. Kneller, Christianity and the leaders of modern science, B. Herder, 1911 (disponível em books.google.com.br).
5. C.S. Lewis, Miracles.
6. G.K. Chesterton, Ortodoxia, 1a edição, Mundo Cristão, 2008.
7. Em entrevista à revista National Geographic, número de fevereiro de 2007.
8. Nova Bíblia na Linguagem de Hoje, em Salmo 77.11 e 14.
9. Pode-se ler sobre isto na Bíblia em 1. Pedro 5.7, Atos 14.17 e Isaías 55.7.
10. Nova Bíblia na Linguagem de Hoje, em Salmo 46.1.

A perigosa influência da televisão

A televisão é uma das mais fantásticas invenções do século XX. Ela trouxe inúmeros benefícios para a sociedade. A comunicação tornou-se precisa ágil e global. Ela encurtou as distâncias, democratizou a informação e abriu os canais do conhecimento para todos, em todos os lugares do mundo. Não obstante os grandes benefícios trazidos pela televisão, ela, também, pode tornar-se um grande perigo para a sociedade. Exatamente por sua poderosa influência, quando mal usada, torna-se perigosa. John Stott, ilustre escritor britânico, num dos seus livros sobre pregação, alerta sobre os perigos da televisão:
1. A preguiça mental – A televisão tende a tornar as pessoas mentalmente preguiçosas. Ela atrai, seduz, vicia e manipula as pessoas. É surpreendente a quantidade de tempo que as pessoas passam diante da televisão. Em média as pessoas gastam de três a cinco horas por dia diante da televisão. A televisão torna-se um vício e esse vício leva as pessoas a se tornarem passivas. Elas deixam de pensar e tornam-se preguiçosas mentalmente. A televisão tende a destituir as pessoas da crítica intelectual, produzindo nelas uma verdadeira flacidez mental.
2. A exaustão emocional – A televisão tende a tornar as pessoas emocionalmente insensíveis. As tragédias do mundo inteiro são despejadas dentro da nossa casa e não temos tempo para deglutir todas essas coisas. No afã de retratar a realidade, muitas vezes, a televisão torna-se formadora de opinião, induzindo as pessoas às mesmas práticas que ela divulga. A violência e a imoralidade andam de mãos dadas na televisão. Desta forma, ela não apenas retrata o que existe na sociedade, mas torna-se uma mestra dessas mesmas nulidades.
3. A confusão psicológica – A televisão tende a tornar as pessoas psicologicamente confusas. Idéias, conceitos, valores, filosofias e crenças são despejados diante das pessoas e muitas vezes, elas não têm o discernimento necessário para filtrar o que é certo e errado. A perda do senso crítico e a incapacidade de avaliar o que está por trás das propagandas, das telenovelas, dos filmes e até mesmo de alguns documentários e noticiários produzem uma confusão psicológica de graves conseqüências.
4. A desorientação moral – A televisão tende a deixar as pessoas em desordem moral. A vasta maioria dos programas, especialmente aqueles que dão mais ibope, estão eivados de valores éticos distorcidos e até mesmo nocivos para a família. A violência veiculada na televisão é uma verdadeira escola de crime. As telenovelas fazem apologia da infidelidade conjugal. Os valores morais absolutos são tripudiados e a flacidez moral enaltecida. Aqueles que se viciam na televisão alienam-se dentro de casa, matam a comunicação familiar e se intoxicam com conceitos liberais e permissivos que conspiram contra a família e provocam verdadeira confusão moral.
5. O esfriamento espiritual – A televisão tende a deixar as pessoas apáticas espiritualmente. Muitas pessoas trocam o culto devocional pela televisão. A tela cheia de cor e imagem ocupa o lugar da leitura da Palavra de Deus e da prática da oração. A comunhão com Deus e com os membros da família é substituída pelo vício perigoso da televisão. Que Deus nos dê discernimento para separarmos o precioso do vil e restaurarmos o altar do Senhor em nossa casa.

Rev. Hernandes Dias Lopes

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Fé, política e espiritualidade...

... Um mandamento a todo cristão!

"A omissão ou a resignação dos cristãos em participar de todo o processo de decisão na órbita da política, fatalmente, incorrerá em oferecemos ao próximo conceitos e princípios de personalidades descompromissadas com o servir, o ouvir e o tolerar."

Desde quando me compreendo como gente capaz de estabelecer considerações sobre os acontecimentos nevrálgicos ou corriqueiros da vida, sempre me deparava com uma visão de escárnio e ojeriza dos cristãos no que toca a política.

De regra, uma fraxe de praxe, ainda fluente em nossos dias, "fé e política não se misturam".

Deveras, devo concordar em todas as vertentes e horizontes os motivos de muitos permanecerem com uma posição de indiferença.

Tão somente, faço um adendo a efeito de analisarmos a distinção dessas esferas e, sem hesitar, acabam por se complementar.

Atentemo-nos para o texto de Matues 05, as bem-aventuranças e chegaremos a categórica conclusão de todas as manifestações das qualidades e potencialidades humanas desembocam no serviço transformador e restaurador da vida.

Evidentemente, muitos poderão e irão atentar para um fluxo de puerilidades e desvirtuamentos de determinados líderes evangeliciais, mais parecidos com proprietários de cabeças de votos.

Devo reconhecer, o conspurcar da palavra de Deus como uma espécie de manto protetor de oportunistas, lastimavelmente, perambulando pelos púlpitos.

Vou mais além, de sacerdotes abrindo mão do mandato de servir, de ouvir e tolerar, em prol de uma ascensão na esfera das decisões políticas, legislativas, cujas consequências são contundentes no nosso cotidiano.

De tudo isso, vejo a política como o espaço destinado a proporcionar a preservação, a promoção e emancipação da vida humana.

Isto implica, aqui neste ângulo de reflexão, a incumbência da Igreja, pessoas resgatadas na sua identidade de ser imago dei, nascente de um Deus projetista e concatenador da vida (seja no seu micro ou macro), em participar da formação de cristãos, de cidadãos, de homens e mulheres enreados para serem testemunhas, discípulos e servos das boas-notícias.

Tanto nos âmbitos do legislativo quanto do judiciário ou executivo!

Agora, sou compelido a confessar a minha preocupação com o enxame de candidatos, sem nenhuma historicidade e contextualidade de serviços ou liame cristão, tentando se valer do slogan ''Pastor tal, candidato tal''.

Para piorar a situação, os meandros de um caudilho ditatorial, lugubremente, dentro de certos arraiais, cujos pretensos líderes, ignominiosamente e vituperalmente, fazem articulações a fim de angariar votos.

Não obstante tamanhas mazelas visíveis, devemos, sim e sim, enquanto estivermos no presente oikos, ser partícipes e participantes em benefício do soerguer de um sistema político regido por pessoas, ser cristãs ou não, submetidas e regidas pela Graça de Deus.

Sem hesitar, suplicar ao Deus da história e trans-história por desencadear o promanar de uma Igreja de práxis, de oração, de meditação séria e sincera da palavra, de uma comunhão espiritual fraternal, solidária e dinâmica.

Vale dizer, um dos mais e maiores sinais de quem enseja adentrar na esfera pública, representa aceitar o chamado para o servir, para o ser servo e serviço.

Ademais, possamos preconizar ao Espírito Santo, ao Deus em que desenhou as mais minúsculas moléculas e partículas, haja com misericórdia, perdão e clemência em prol dessa nação.


Por: Robson Santos Sarmento

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O Espiríto sopra onde quer...

Quando leio a Bíblia, não encontro uma filosofia, não encontro um discurso político, uma questão metafísica e nem mesmo uma religião. Encontro a tentativa de um diálogo de Deus com o homem. Uma palavra pessoal que me é endereçada e me interroga sobre o que eu faço, sobre o que eu espero, sobre o que eu duvido, sobre o que eu penso e sobre o que eu sou.
Os textos bíblicos me comprometem, me fazem entrar numa caminhada que não está relacionada aos meus pontos de vista pessoais, nem as minhas escolhas racionais e ainda não me dão conclusões objetivas sobre tudo o que indago. De certa forma eu digo, embora sabendo que nem todos concordem com as minhas palavras, que os textos bíblicos não concluem nada, porque não há conclusão senão na Jerusalém Celestial e em nossa Ressurreição. E digo mais, os textos bíblicos são jamais uma “solução”, ao contrário, eles indicam um Caminho. Acredito que essa ausência de conclusão sistemática arruína toda tentativa de construção ideológica ou ética a partir da Bíblia.
E é justamente nessa questão, que estão os problemas das instituições religiosas de nosso tempo. Cada organização religiosa cria seus dogmas, seus ritos, suas leis aos quais ensina os seus prosélitos a viverem de acordo com o seu “próprio” sistema cristão. Quando uma organização religiosa tenta santificar as pessoas que a compõem, cria em si uma negação dos próprios fundamentos do cristianismo pelo triunfo da lei sobre a graça. Num esforço “supremo” de doutrinar a conduta cristã, de fixar definições e termos, as igrejas de nosso tempo “canalizaram” a Palavra de Deus criando um sistema complexo de “tubulações” que gerou um emaranhado de condutores específicos para cada denominação, fazendo cada igreja possuir o seu sistema condutor, um diferente do outro. Ao passo que nas Escrituras o que vemos é justamente o inverso, pois não existe um ponto de estabilização doutrinal nem dialético. “Porque o Espírito sopra onde e aonde quer”. A igreja está sendo vencida por acreditar cristianizar e moralizar o homem decaído não através da Graça, mas de suas leis farisaicas que mais escravizam do que traz liberdade. Eis aí uma pequena evidência do fracasso de nossa insignificante religiosidade disfarçada de altruísmo ou coisa semelhante.

Deus tenha misericórdia de nós.

Por: Angelo Barbosa Da Silva

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Um novo sabor relacional

O evangelho é mesmo poder de Deus, força transformadora para aqueles que creem e, por isso, experimentam novidade de vida.

A partir da relação com Cristo nossas relações ganham um novo frescor. Algumas mudam o rumo, outras recebem novo significado, e a qualidade melhora. Com Jesus a linguagem da alma é resgatada e assim aprendemos a nos expressar mais e melhor. A profundidade é buscada e promovida; afinal, as perguntas de Jesus nos obrigam a sair da superficialidade, revelam coisas enterradas dentro de nós, trazem luz às nossas trevas. O evangelho de Cristo nos faz repensar como nos relacionamos, nos faz refletir sobre o cuidado com as palavras, com as pessoas, nos enche de compaixão, nos mobiliza em direção ao outro para servi-lo.

Nossas práticas são revistas e transformadas. Uma sensibilidade crescente em relação ao próximo nos indica que Cristo está fazendo algo novo em nós. A partir daí novas responsabilidades nascem, o próximo passa a ser alvo de minha atenção, e compromissos brotam, trazendo-nos novas agendas.

O pecado causou um estrago enorme em nós, contaminando também nossos relacionamentos. Devido a isso, a conversão a Cristo traz-nos mudanças radicais. Restaurações são necessárias. Entretanto, a queixa constante ainda é: “Se o ser humano é complexo, fulano é uma mutação piorada”. Contudo, se o pecado nos adoeceu a todos, quais os sinais de saúde que o evangelho promove?

Quando falamos de relações e convivências difíceis, facilmente nos vem à mente a comunidade dos coríntios. Ali há desrespeito, difamação, competição, malícia, arrogância, inveja, deslealdade, ganância e uma lista que cansaria qualquer um. Como conviver com gente assim? Onde encontrar ânimo?

O apóstolo Paulo, a certa altura, escreve: “Falamos abertamente a vocês, coríntios, e lhes abrimos todo o nosso coração! Não lhes estamos limitando nosso afeto, mas vocês estão limitando o afeto que têm por nós. Numa justa compensação, falo como a meus filhos, abram também o coração para nós!” (2Co 6.11-13, NVI). A transformação do evangelho na vida de Paulo é impressionante; antes perseguidor, agora acolhedor. O apóstolo fala-lhes de tristezas, conversa a partir de sua própria pobreza, assumindo que de si mesmo nada tem a oferecer, e com exemplo e coragem convida os irmãos a abrirem o coração. Ele expressa seu afeto por aquelas pessoas com inteireza -- “é de todo o coração”.

Como é difícil em nossos dias sermos pessoas que se rendem de todo o coração. Nosso contexto é de fragmentação, e à medida que o medo aumenta os muros crescem. Parece que estamos cada vez mais isolados e confusos. Carentes, porém, temerosos; desejosos por profundidade, mas resistentes à intimidade. Para muitos, compromisso hoje em dia é sinônimo de aprisionamento, e manter distância é sempre assegurar-se de algum conforto e maior segurança. Como o evangelho nos muda apesar desse contexto doentio?

A dica vem do próprio Jesus. É como se ele dissesse: “Ouça a Deus, você está debaixo de novo senhorio. Ouça a sua recomendação, escolha a vida, atente para o que ele ensina. Ame o Senhor, o seu Deus, e o faça de “todo” o seu coração, de “toda” a sua alma, de “todo” o seu entendimento e de “todas” as suas forças. Assim você aprenderá a amar o próximo como a si mesmo” (Mc 12.30-31). Uma nova consciência surge, a alma é tocada, uma profundidade inédita nos toma e os encontros jamais são os mesmos.

Como diz o famoso escritor argentino Ernesto Sabato, “toda vez que perdemos um encontro humano uma coisa se atrofiou em nós, ou se quebrou”. Agora, por causa de Cristo, saímos da toca, tocamos e somos tocados; novas manifestações da alma apuram o paladar de nossas relações.

Thais Machado

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A adoração verdadeira

A adoração verdadeira é manter sempre o foco em Deus. Partindo deste pressuposto, podemos discernir se de fato estamos adorando a Deus verdadeiramente em nossas reuniões de adoração ou na vida particular. Quando nossas motivações reais para adorar ao Senhor se apresentam distantes do ideal de focalizar Deus em todas as coisas – isto é, glorificá-Lo acima de tudo e todos – não podemos afirmar que estamos adorando a Deus. Assim, será que o que nós convencionamos chamar de adoração a Deus não é uma grande farsa? Para responder acertadamente a esta pergunta precisamos definir com exatidão em quem está o foco na adoração.

O homem pós-moderno aprendeu desde cedo que é importante ser aclamado e ovacionado. Esta tendência vem do berço, pois todos nós nascemos pecadores com a natureza de Adão. Sendo assim, o homem quer ter a primazia em tudo. E não é mera coincidência porque muitas das letras de músicas que são conhecidas como “músicas de adoração”, na verdade centralizam o homem e colocam Deus como apenas um supridor de necessidades. Se o foco está no homem e se Deus é apenas acessório, definitivamente isto não é adoração verdadeira. Podemos observar ajuntamentos de pessoas cantando euforicamente, mas são cânticos lançados ao vento que não chegam ao trono de Deus, pois somente Ele é digno de ser adorado e reconhecido como o Altíssimo.

Para adorar a Deus o homem precisa se esvaziar de suas vontades carnais. O homem tem que descer do trono e sair do pedestal de orgulho. Somente ao negar-se a si mesmo, o homem terá condições de adorar verdadeiramente a Deus. Somente ao rejeitar sua própria glória, o homem poderá achegar-se a Deus com o propósito sublime de glorificar somente o Seu Excelso Nome.

Esta é grande necessidade dos nossos dias. O Pai ainda procura os adoradores que O adorem em espírito e em verdade, mas somente os filhos redimidos do ego e convertidos pela graça estão prontos para oferecer-Lhe uma adoração não fingida. Quem já foi convertido pela graça entende perfeitamente que o foco da adoração deve estar direcionado somente para o Senhor Deus, que é o Único merecedor de honras, glória e louvor pelos séculos dos séculos.

marckmelo.blogspot.com