terça-feira, 2 de junho de 2020

As razões de um nome

Olá, sou um Nome, 

posso me expressar como um significado,
ou conceito a qual a palavra é remetida, 
como uma imagem acústica da palavra falada, 
e também como a representação gráfica da palavra escrita. 

Sou um signo que foi escolhido para nomear um individuo ao nascer e acompanha-lo por toda sua existência. Minha representação gráfica é Ângelo, uma proparoxítona forte, acentuada e um ícone que etimologicamente foi destinado a acompanhar anjos, seres enviados para cumprir os desígnios de Deus e que orgulhosamente deu origem a palavra Evangelho, sou muito feliz por essa herança genética e cultural.  Mas tem algo que as vezes me entristece, é que ao ser designado e escolhido para dar nome ao meu avatar, seus pais não pensaram em semântica, sintática e nem respeitaram as normas cultas do bom português. Eu fui registrado oficialmente depois de quatro anos, e como se isso não fosse trágico, ainda cometeram um erro crasso ao me deixarem sem o circunflexo, isso mesmo, transformaram uma proparoxítona em paroxítona, algo extremante danoso aos ouvidos e a norma culta deste tão nobre idioma. E pra piorar este cara nem de longe se parece com um anjo, muito pelo contrário, é cheio de limitações, dificuldades e imperfeições. Mas, sendo sincero, ele não é de todo ruim, e tem algo que me traz contentamento e que eventualmente me deixa muito feliz. É que em alguns pontos de sua vida ele faz jus ao meu significado e representa bem minha imagem. Ele sabe que tem uma missão e que foi enviado para cumprir um desígnio e um propósito de Deus em seu tempo. Isso me deixa extremamente feliz e orgulhoso! Sinto que que minha razão de ser, está sendo bem representada por ele.   Ele não é um herói de sua geração, mas é um herói de si mesmo, um sobrevivente, consciente de suas fraquezas, mas que de tempos em tempos personifica este nobre nome, numa bela representação gráfica e acústica do que Deus espera dele. Ele não gosta de falar sobre isso e acho que não vai concordar com o que estou dizendo. Mas o texto e esta história é minha e esta é também é a minha percepção. 
Portanto Angelo, continue tentando ser o melhor que puder para honrar e respeitar o teu Nome.

Tu estás comigo!

Ainda que eu ande pelo vale escuro como a morte... - NVI
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra e da morte... - ALMEIDA

A narrativa do salmista Davi fala sobre a graciosa companhia de Deus.
Tu estás comigo

E porque Tu estás comigo eu não preciso de nada.
Porque Tu estás comigo eu posso descansar em verdes pastos.
Porque Tu estás comigo me sacio em águas tranquilas.
Porque Tu estás comigo minhas forças são renovadas.
Porque Tu estás comigo há um jantar completo.

Mas a Tua Graciosa Companhia não me imuniza contra as agruras da vida e não me exclui de dificuldades.
Eventualmente eu sei que vou caminhar por Vales de sombra e morte. 
Mas eu não fico no vale parado e absorto.
Eu ando e passo por ele... 
(...) Mesmo diante circunstâncias ruins eu continuo andando e caminhando por que Tu estás comigo e renova as minhas forças

Tu está comigo e não importa onde estiver ou aonde for, sei que Tua bondade e teu amor me seguirão todos os dias da minha vida. 

Assim, não importa o meu momento, se estou abastado e feliz ou em um vale de sombra e morte. 
Tu estás comigo, e independente do lugar que eu estiver, me sentirei como se estivesse no Teu templo.

Diante da vida ou da morte, eu descubro que não preciso de nada além de Ti e da Tua Graciosa Companhia e Doce Presença.


Abraços a todos

Angelo

terça-feira, 10 de abril de 2018

“A igreja tem feito muita coisa em nome de Deus que Deus não pediu para fazer”

Por Hideide Brito Torres

Kevin DeYoung, um jovem pastor norte-americano, comenta que podemos ter dois amigos, dois hobbies ou dois empregos. Mas não dois senhores, porque escravidão é uma coisa absoluta. Jesus ensina que não é possível servir a dois senhores, porque a gente acaba amando a um e desprezando o outro (Mateus 6.24). Ou colocando as coisas de um em primeiro lugar e relegando ao outro as segundas opções.

É interessante como coisas óbvias nos chocam. Sinto-me envergonhada em perceber o quanto em mim ainda se debate entre duas ideias, dois propósitos ou até mais! Como é fácil desviar-me do que é importante e dar valor ao secundário. Foi por isso que a Igreja se desviou muitas vezes da missão. Dividiu-se em partidos religiosos, assumiu posturas político-ideológicas de modo radical, perseguindo quem pensava diferente e envolveu-se em causas sociais que, embora importantes e pertinentes, não eram a sua missão principal. Assim, mitigou-se o anúncio do Evangelho, da necessidade do arrependimento, e da conversão para a salvação e a vida eterna em Jesus. 

Isso trouxe tantos problemas ao longo dos anos que até hoje estamos aqui, tentando acertar e ainda errando. Com nossos erros, fazemos pessoas sofrerem, nos afastamos do próximo e de Deus, damos um mau testemunho público ou recaímos nas temáticas dos sacerdotes e levitas que passam de largo (Lucas 10.25ss). Ou nos debatemos a fazer muitas obras, mesmo sem o crivo da fé (Tiago 2.14-26). Enfim, nos dividimos interiormente como pessoas e comunitariamente como corpo de Cristo. As divisões escandalizam. Os escândalos fazem com que as pessoas se afastem da fé. O afastamento leva à incredulidade. E a morte instala-se no lugar da vida plena que devíamos oferecer pelos méritos de Jesus, que morreu por nós.


O Pastor Kingspride, missionário metodista no Gana, nos lembrou recentemente numa visita ao Brasil que a igreja tem feito muita coisa em nome de Deus que Deus não pediu para fazer. Tem se tornado uma prestadora de serviços ao invés de uma agência da graça. Tem condenado como um tribunal ao invés de entender que a promessa diz que o Espírito seria derramado sobre toda a carne, e não apenas sobre as carnes que achamos mais pertinentes ou parecidas conosco. Que o Espírito de Deus está sobre lugares que a gente não admite e sobre pessoas com quem não gostaríamos de partilhar o Evangelho. Duramente, nos advertiu que Deus chamou os/as judeus/as para serem os/as portadores/as de suas boas-novas. Com a recusa daquele povo em abrir-se ao amor aos outros povos, resguardando só para si a aliança, Deus, em Cristo, levantou a Igreja. Mas bem pode ser que essa graça de sermos colaboradores e colaboradoras com Deus nos seja subtraída da mesma maneira, se também nos recusarmos a abrir nossa vida, coração e prática a amar ao próximo que Deus criou e não apenas o próximo que se parece conosco.

Tenho achado dura esta palavra. E é porque ela me confronta. Integridade é um estado de ser inteiro, sem rachaduras, sem manchas, ruga ou mácula. Um estado de uma pessoa capaz de alinhavar seu discurso e sua prática com a linha mesclada da coerência. Como isso é difícil! Prova disso é o quanto nós, como Igreja de Cristo, nos encontramos em um estado de tensão, de separação e de dúvida que não opera a graça e o amor de Jesus. O desespero daí resultante, como lembra Kierkgaard, é o pecado que não tem perdão, a blasfêmia contra o Espírito Santo, porque no fundo, no fundo, estamos a afirmar que Deus não pode fazer o que Ele se propôs nas Escrituras. Na prática, vivemos de modo oposto ao que pregamos. Nossa desintegração é visível aos olhos e escândalo para quem não crê. Como vencer esse pecado?

Acredito que um passo importante é a gente começar pelo básico: o arrependimento. Nos/as crentes, diz João Wesley, o arrependimento é o conhecimento de si como ser humano pecador diante de Deus. Reconhecemos que a desintegração dos nossos valores compromete a integridade do nosso serviço e do nosso testemunho. Corremos o risco da injustiça, do desamor, da exploração de posições ou do poder do discurso, minamos a fé e a esperança das pessoas, descuidamos da família, do mundo como obra de Deus e prestamos um desserviço ao Evangelho de Cristo.

Ao contrário, a integridade promovida pelo arrependimento assume a cada dia o caráter esperançoso e transformador da conversão. Kingspride nos mostrou em suas ministrações que Jesus era íntegro no propósito e na prática. Ele não quis ser rei nem aceitou honrarias no contexto judaico. Ele veio para levar as pessoas a uma experiência de salvação e se manteve fiel a este propósito de cumprir a vontade do Pai. Por isso, ele ensinava de modo a formar uma base sobre a qual a pregação poderia levar a uma resposta mais efetiva do ouvinte. Uma vez ensinado e tendo respondido à pregação, este ouvinte, homem ou mulher, poderia receber a cura de seu corpo ou alma enfermados. E depois de fazer isso, comovido pela multidão das ovelhas sem pastor, tocado pelo iminente prejuízo da colheita madura sem trabalhadores/as suficientes, Jesus compartilhou de si mesmo para gerar tais colaboradores/as (Mateus 9.35-38).

A igreja que não é íntegra em seu arrependimento, em seu caráter e em seu serviço pode colocar a perder todo o esforço de Jesus. O tempo de percebermos isso e de nos movermos para a unidade do corpo e para a integridade prática é urgente e é agora. Se discípulos e discípulas nos caminhos da missão servem com integridade, os valores do Reino aparecem em tudo o que fazem, porque não apenas fazem o que Deus mandou, mas fazem do jeito como Deus faria – gerando justiça, paz e alegria (Romanos 14.17). 

Nota: Publicado originalmente no Jornal Expositor Cristão de janeiro/2018. Acesse aqui. Reproduzido com permissão.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Nathalia e seus 18 anos - Congratulations

Quando soube que você viria eu senti medo.
Não qualquer medo, mas algo parecido com pavor.
Não me sentia preparado. Não sabia como cuidar de você - (na verdade nunca soube).
Já de muito enxergava minhas limitações ao longo dos meus vinte e dois anos de plena “maturidade”.
Não conseguiria protege-la num mundo jurássico cheio de trogloditas idiotizados por um sistema corrompido.
Por isso chorei algumas noites e alguns dias também.
(...) Então chegou o dia! 
- 10 de novembro de 1999 -
Depois de agonizar algumas horas na sala de espera do hospital a enfermeira me chama as 20:30 com você nos braços. 
BOOM!!!!! Você estava lá! Uma explosão de sentimentos.
Você estava lá. E agora?


(...) Cada fase que você atingia era um misto de alegria acrescida de uma profunda preocupação.

O tempo foi passando e eu fui aprendendo que na jornada da paternidade eu não estava só, havia mais Alguém... Onisciente, Onipresente e Onipotente, que Fazia sempre toda a diferença.
Era Ele quem de fato cuidava de você.
Também percebi que por mais que me esforçasse não conseguiria protege-la integralmente.
Foi então que descobri que minha função nessa (sua) história era somente a sua preparação e que você estava SOMENTE e TEMPORARIAMENTE sob meus cuidados e sob minha guarda.
Isso foi doído, mas também libertador. Aprendi que você não era minha, mas D’Ele.

(...) Eu, um “espartano” legítimo e rude, aprendi a ver através dos seus olhos um mundo de menina, um lugar que até então não conhecia. Lugar de delicadezas quase imperceptíveis.
Com você eu pude descobrir meu propósito de vida, minha razão existencial eclipsada nos cantos mais obscuros da minha alma.
Descobri que morreria por você todos os dias, mas também renasceria pra fazer as mesmas coisas todos os dias.

(...) Não sei se fui um bom pai (afinal, os parâmetros ((meu e seu)) são diferentes), mas queria que soubesse que sempre procurei fazer o melhor, na tentativa de fazer (junto com Deus) de você uma grande pessoa. 
Vejo que nosso trabalho (Deus e eu) está dando certo.
Você se tornou alguém muito especial.

Hoje você faz dezoito. Uma idade cheia de símbolos e perspectivas diferentes. Um fim e um começo.
Novas etapas, lutas, sonhos, avanços e realizações.
Não sei precisar por quanto tempo acompanharei seu progresso, mas saiba que o que fiz não é nada perto do que Deus faz.
Não se intimide.
Não tenha medo.
Avance.
Prossiga.
Cante.
Trabalhe muito.
Estude muito.
Aprenda o tempo todo.
Arrisque.
Ame.
Faça a diferença.

Neste 10 de novembro tão especial, agradeço a Deus pela oportunidade tê-la sob meus cuidados. 
Espero estar pronto quando você estiver.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

A igreja e as igrejas: reflexões eclesiológicas à luz da história do cristianismo


Uma questão de permanente interesse para os cristãos é o conceito de igreja, seu significado, sua abrangência e seus limites. O Novo Testamento usa a palavra ekklesia tanto no singular quanto no plural; ou seja, para referir-se a uma comunidade cristã específica — uma igreja local (Mt 18.17; At 8.1; 14.23; Rm 16.5; 1 Co 1.2; 4.17; Fp 4.15; Cl 4.15, 16; Ap 2.1) ou a uma pluralidade dessas comunidades, geralmente em uma determinada região (At 15.41; Rm 16.4, 16; 1 Co 7.17; 2 Co 8.1; Gl 1.22; 1 Ts 2.14; 2 Ts 1.4; Ap 1.4). Mais intrigante, e certamente mais complexo, é o uso do termo no singular com um significado coletivo, com referência a uma realidade mais ampla e mais profunda, como é o caso da passagem clássica de Mateus 16.18. Esse uso teologicamente mais denso do termo também pode ser visto em textos como Atos 20.28 e em várias passagens de Efésios e Colossenses (Ef 1.22, 23; 3.10, 21; 5.23-32; Cl 1.18, 24). 

Mas o que é afinal “a igreja” nesse sentido mais abrangente e mais profundo? O Novo Testamento parece dar uma dupla resposta a essa pergunta. Por um lado, a igreja é uma realidade espiritual e mística, o corpo de Cristo, e como tal é invisível aos olhos humanos (Ef 1.23; 2.16; 4.4, 12, 16; Cl 1.18, 24; 2.17, 19; 3.15). Por outro lado, em um sentido mais concreto e palpável, esse corpo é o conjunto de todos os cristãos (Rm 12.4, 5; 1 Co 10.17; 12.12-27; Ef 3.6; 5.30). Nesta segunda acepção, o Novo Testamento utiliza várias outras figuras para designar a igreja: povo de Deus, família, edifício, rebanho, lavoura de Deus e outras. Em nenhum desses dois aspectos neotestamentários o termo “igreja” refere-se a uma estrutura, a uma instituição, mas é sempre uma realidade invisível, o corpo místico, ou visível, o conjunto dos fiéis.



Igreja institucional

No final do primeiro século e início do segundo, começou a surgir a idéia de que a igreja é uma instituição e que essa instituição consiste essencialmente no colegiado dos seus líderes. Esse foi um período ao mesmo tempo fértil e conflitivo para o cristianismo — um período em que os cristãos precisaram definir com mais clareza a sua identidade diante de múltiplos desafios internos e externos. Entre os desafios internos estava o surgimento de interpretações distintas e por vezes divergentes da fé cristã. Ou seja, o movimento cristão não era monolítico, uniforme ou homogêneo, mas caracterizava-se por uma notável diversidade.

Diante da existência de grupos dissidentes como os docetistas, os gnósticos, os marcionitas, os montanistas e outros, logo surgiu a questão: Onde está a igreja verdadeira e como identificá-la? A resposta foi o que se convencionou chamar de “igreja católica”, expressão essa que surge pela primeira vez na literatura conhecida numa carta do bispo Inácio de Antioquia datada aproximadamente do ano 110. A “igreja católica” passou a ser uma designação da igreja majoritária, do cristianismo normativo, ortodoxo, fiel ao ensino de Cristo e dos apóstolos, em contraste com os movimentos dissidentes, considerados falsos ou heréticos. Essa “igreja católica” do segundo século caracterizava-se por três elementos essenciais: a aceitação de um conjunto de livros tidos como divinamente inspirados (as Escrituras Hebraicas e o cânon do Novo Testamento), a declaração formal dos pontos centrais da fé cristã (o credo, geralmente em forma trinitária) e especialmente a concentração da autoridade nas mãos de um único líder em cada igreja local (o bispo monárquico). Associado a isso, surgiu o conceito da sucessão apostólica.

O bispo, sucessor direto dos apóstolos, passou a ser visto como o guardião tanto da unidade quanto da ortodoxia da igreja. A igreja estava presente onde o bispo, o representante de Cristo, estivesse presente. E o conjunto de todos os bispos constituía a igreja no sentido mais amplo. Quem estivesse em comunhão com os bispos estava na igreja; quem não estivesse em comunhão com os bispos, estava fora da igreja. A partir daí, a identificação da igreja com a hierarquia eclesiástica passou a ser cada vez mais acentuada.



Grupos dissidentes

Uma situação particularmente interessante surgiu no quarto século, no contexto da última perseguição movida contra os cristãos. A partir do ano 303, o imperador Diocleciano e depois dele o seu sucessor Galério tentaram eliminar o cristianismo do Império Romano. Uma das medidas adotadas foi a destruição de cópias das Escrituras. Os líderes eram pressionados a entregar os manuscritos, e aqueles que o fizeram ficaram conhecidos como “traditores” (isto é, “entregadores” e, por extensão, traidores). Aconteceu que, numa eleição episcopal realizada no norte da África, um dos bispos consagrantes do bispo eleito foi acusado de ser um “traditor”. Isso deu início ao chamado cisma donatista (de Donato, um dos líderes do movimento), que resultou numa igreja separada da Igreja Católica e paralela a esta. Na região da Numídia havia, nas mesmas cidades, igrejas católicas e donatistas lado a lado. Foi somente no início do quinto século que o cisma donatista foi eliminado mediante intervenção estatal, medida essa apoiada pelo grande bispo e teólogo Agostinho. Em suma, considerou-se que a igreja donatista não era uma igreja verdadeira, não merecia o nome de igreja.

A partir de então, a Igreja Católica, agora poderosa e aliada do Estado romano, passou a combater sistematicamente qualquer dissidência religiosa. A igreja tornou-se uma organização cada vez mais coesa, monolítica, centralizada no clero e especialmente na figura do bispo de Roma, agora elevado à condição de líder supremo, o papa. Surgiu gradativamente, ao longo da Idade Média, o conceito de cristandade, a visão de uma sociedade unificada tanto política quanto religiosamente, tendo no seu topo as figuras dos reis e dos bispos, do imperador e do papa. Os que ousassem divergir eram duramente reprimidos, como aconteceu com os cátaros, uma seita sincrética do sul da França, que foi eliminada em grande parte por uma série de cruzadas no início do século 13. Foi nesse período que sistematizou-se a punição dos hereges com a criação da Inquisição papal ou Santo Ofício.

Se os cátaros dificilmente poderiam ser considerados seguidores do cristianismo histórico, em face das suas convicções gnósticas e maniqueístas, tal não se poderia dizer de outro movimento francês do século 12, os valdenses (do nome do líder inicial, Pedro Valdés), inicialmente conhecidos como os “homens pobres de Lião”. Caracterizados pelo seu apego às Escrituras e por um estilo de vida simples, os valdenses foram igualmente reprimidos, somente sobrevivendo por terem se refugiado em alguns vales remotos dos Alpes no norte da Itália. O mesmo se pode dizer do movimento iniciado pelo sacerdote inglês João Wycliffe e seus seguidores, os lolardos, no final do século 14. A crítica da igreja medieval com base nas Escrituras, empreendida por Wycliffe, encontrou eco em um sacerdote checo, João Hus, que acabou morto na fogueira pelo Concílio de Constança, em 1415. Seus seguidores, os hussitas ou irmãos boêmios, mais tarde conhecidos como irmãos morávios, constituíram um movimento extremamente equilibrado, bíblico e cristocêntrico, embora estivessem excluídos da igreja oficial. Com o advento da Reforma Protestante, tanto os valdenses quanto os irmãos morávios abraçaram o protestantismo, sendo, portanto, igrejas evangélicas anteriores à Reforma. Todos esses grupos tiveram negado o status de igrejas, embora certamente o merecessem.



A posição dos reformadores

A Reforma Protestante foi, entre outras coisas, um protesto contra a noção de que uma determinada confissão cristã tem o direito exclusivo ao título de igreja. Antes, os reformadores afirmaram que, onde quer que o povo de Deus se reúna para ouvir a pregação fiel das Escrituras e receber os sacramentos bíblicos aí está presente a igreja. Com essa nova mentalidade, o protestantismo abriu as portas para a diversidade dentro do cristianismo. Como a igreja não se reduz a instituições ou estruturas eclesiásticas, os protestantes aceitaram com relativa facilidade a existência de diferentes ramos no seu movimento: inicialmente luteranos, calvinistas, anabatistas e anglicanos; posteriormente, batistas, congregacionais, metodistas e muitos outros. Na cosmovisão protestante não existe a distinção entre clero e leigos — todos são “leigos” (do grego laós, ou seja, “povo”, o povo de Deus) e ao mesmo tempo sacerdotes (1 Pe 2.9, 10).

Ainda que as divisões protestantes tenham seus aspectos tristes e condenáveis, elas implicam o reconhecimento tácito de que nenhum grupo pode arrogar a si o direito de ser a manifestação plena e exclusiva da igreja de Cristo. Nenhuma igreja evangélica, por mais bíblica que se considere, pode, em sã consciência, considerar-se “a igreja”, à exclusão de todas as demais. Existem muitas “igrejas”, no sentido de agremiações cristãs, mas uma só “igreja”, no sentido mais profundo da palavra, o corpo espiritual e invisível de Cristo ou o conjunto de todos os verdadeiros seguidores de Cristo, que inclui pessoas de todas as igrejas, sejam elas protestantes, católicas ou ortodoxas, e até mesmo indivíduos que, por algumas razões excepcionais, não estão filiados a nenhuma denominação cristã. Somente Cristo conhece os que são seus.



Dois exemplos recentes

Diante disso, é estranho que certos evangélicos continuem insistindo na tese de que a sua agremiação religiosa seja “a igreja” por excelência, ou, pior ainda, que uma determinada estrutura eclesiástica possa ser assim considerada. Ainda recentemente, o líder de uma denominação brasileira, referindo-se a um grupo que entrou em conflito com a cúpula da denominação, disse que aquele grupo estava rebelado contra a noiva de Cristo e por isso sujeitava-se a conhecer a ira do Cordeiro, o noivo da igreja. Acrescentou que rebelar-se contra a igreja tipifica a atitude daqueles que se rebelam contra Deus. Essas colocações revelam um lamentável equívoco quanto ao conceito bíblico e evangélico do que é a igreja na sua expressão mais elevada: não é a denominação, a estrutura, a instituição humana, e muito menos a sua liderança atual, e sim o corpo de Cristo ou o povo de Deus, que transcende os limites de qualquer agremiação religiosa. 

No ano 2000, protestantes do mundo inteiro ficaram surpresos com uma declaração oficial emitida pelo Vaticano afirmando ser a Igreja Católica Romana a única igreja verdadeira. O Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, condenou a aplicação da expressão “igrejas irmãs” às igrejas protestantes (elas seriam somente “comunidades eclesiais”) e o documento Dominus Iesus declarou que as igrejas que não possuem um “episcopado válido e a substância integral e genuína do mistério eucarístico não são igrejas no sentido apropriado”. Líderes denominacionais de todos os matizes teológicos fizeram ouvir o seu protesto, mostrando que alguns pontos controvertidos do século 16 continuam relevantes no início do terceiro milênio. Para os herdeiros da Reforma a questão é clara: a igreja invisível é uma realidade que somente Deus conhece; já a igreja visível é, acima de tudo, o povo de Deus, o conjunto dos fiéis, onde quer que estejam. Nas palavras do apóstolo dos gentios: “Vós sois corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo” (1 Co 12.27).


Alderi Souza de Matos

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O Amor transforma o trabalho em Ministério

Em Gênesis encontramos uma das mais puras declarações de amor humano: “Então Jacó trabalhou sete anos por Raquel, mas lhe pareceram poucos dias, pelo tanto que a amava” (Gn 29.20). O trabalho escravo pode se tornar um trabalho por amor. O amor transforma todo tipo de trabalho em ministério.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Fé e Crer qual diferença?

Já faz algum tempo que defendo a ideia de que fé e crer possuem significados diferentes. Claro! sei que a maioria das pessoas irão torcer o "bico" num semblante de... como assim?
Costumamos ouvir muita gente dizendo o tempo todo que têm fé e que creem, trocando as palavras e seus conceitos e isso dificulta bastante a compreensão. Mas o que vejo normalmente são pessoas que falam de fé como se fosse esperança. Exemplo: tenho fé que amanhã será melhor, ou tenho fé que as coisas vão dar certo, ou ainda tenho fé que você conseguirá seus objetivos. Penso que este tipo de pensamento ou fala não tem nada a haver com fé, isso é esperança e a Bíblia deixa claro que existe uma grande diferença entre fé e esperança. Logo, se existe diferença entre esperança a argumentação que comumente utilização pode ser num certo momento equivocada.
Mas então o que é crer e o que é fé?
Uma síntese dessa argumentação obtive recentemente numa conversa com alguns adolescentes o que me deixou bastante satisfeito.
Crer é acreditar que Deus pode fazer qualquer, em qualquer lugar e em qualquer tempo. Já fé é colocar minha vida nas mãos de Deus para que ele possa fazer o que quiser, quando quiser e como quiser.
Fé não é determinar profeticamente o que Deus deve fazer por mim ou por alguém. Fé não viver crendo que as circunstâncias irão ficar diferentes. Fé é dispor a minha vida de forma que ela seja moldada aos padrões de Deus e não do mundo. Fé é caminhar com Deus sabendo que a vontade que deve prevalecer é a Dele e não a minha. Fé não é algo que se tem, mas que se vive, assim como está escrito que o justo viverá da Fé.