sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Teologia Política

Repugnância, nojo, desencanto, desânimo, desilusão são algumas palavras que exprimem o sentimento da maior parte dos brasileiros com o atual quadro político                                  


Realmente dá para ficar desmotivado em participar de algo funesto. Por isso alguns falam em anular o voto ou abster-se como forma de protesto. 
Mas qual é o dever do cristão para com a sociedade e o Estado no qual se encontra? Diante das eleições surge a pergunta sobre como agir nesse momento. 
A Bíblia trata da participação do crente na sociedade e na política: 
No AT: José, Moisés, Josué, os Juízes, Davi, os Profetas, Ester, Daniel, Neemias, Esdras, etc. 
No NT: Rm 13.1-7: Reconhecer que autoridade é instituída por Deus; At 5.29: Desobediência responsável; Lc 20.22: Legitimidade do Estado e dever de pagar tributo; I Tm 2.1-2: Intercessão; Ap 13: Crítica profética. 

O Apocalipse tem uma densa teologia política: Foi escrito a cristãos que se encontravam debaixo de perseguição por parte do Império (para os cristãos era uma questão religiosa; para o Estado uma questão política). O livro é uma denuncia contra o totalitarismo e tirania: nenhum poder terreno é absoluto e só Deus é o soberano final, aquele que vai julgar o mundo. O Cordeiro é apresentado como aquele que derrota aos poderes políticos hostis desse mundo. 

Paradoxalmente, os cristãos em geral, negligenciam sua responsabilidade política. Quais as razões? 
1. Crença de que a política seja em si mesmo suja; 
2. Pessimismo diante da maldade e corrupção humana; 
3. Exagero na ênfase na moral individual e subjetiva; 
4. Falta de entendimento do processo político; 
5. Equívoco quanto a separação entre Estado e Igreja; 
6. Apoio tácito à manutenção da ordem vigente; 

Sempre houve tensão entre a participação e a separação da sociedade e da política. 1º Alguns optaram por uma ruptura total, isto é, sair do mundo. 2º Outros escolheram um modelo de imersão total e acabaram sendo assimilados pelo mundo. A 3º via é uma postura de participação crítica. I Pd 2.11-17  explicita o que é "Participação Crítica". 

Proposição 
Deus deseja que cada cristão ajude a construir uma sociedade melhor. Para isso são definidas duas Posturas Sociais básicas. 

1ª Postura: Sujeitar-se a toda Instituição Humana (2:13) 
As igrejas às quais I Pd se dirige estavam sofrendo uma série de acusações e a tendência natural seria a retração social. Os cristãos são chamados a ter um comportamento social exemplar. Como se dá 
esse comportamento exemplar? 
Sujeitar (hypotagete) significa colocar-se debaixo, submeter-se, cooperar com a missão; sendo diferente de obedecer (hypakuete). Trata-se de submissão, é voluntária - como livres que sois (2:16) - e que não significa concordância cega com o governo: deve ser consciente. Significa respeitar e apoiar o ordenamento sócio-político. 
Submeter-se a instituições humanas. Que tipo de instituições? Instituições para Pedro é a monarquia e as autoridades governamentais (2:13), o trabalho (2:18),  a família (3:1) e a Igreja (5.5). São esses os temas que são abordados aqui.  No Brasil, o poder emana do povo e a Constituição Federal é o poder final. 
Assim, submissão às instituições significa respeitar aquilo que foi constituído pelos homens para organizar a sociedade. No Brasil quer dizer respeitar a democracia, a constituição, a divisão de poderes, o voto. (Numa monarquia envolveria outros valores). 
É respeitar o sistema político, mas sempre discernindo se os atos dos que ocupam o posto visam o bem (autoridades estabelecidas para promover o bem e reprimir o mal). 
Então Pedro está dizendo aos cristãos que não deveriam alienar-se da sociedade ou provocar uma ruptura, mas, pelo contrário, deveriam livremente participar positivamente da mesma. 
O motivo da submissão às instituições é por causa do Senhor. Assim, por causa da lealdade a Jesus é que devemos nos portar bem diante do Estado (e não por que as autoridades são carismáticas ou tragam benefícios a nós). Isso quer dizer que a nossa postura pública não é por causa das instituições em si (como se fossem em si divinas - são humanas), mas por uma causa externa a elas, Jesus Cristo nosso modelo.  Isso torna relativo todo poder humano. 
Talvez alguém pense que participar da sociedade e da política seja mau. Não é essa a compreensão de Pedro. Ele diz que devemos nos abster das paixões carnais (festas a ídolos, orgias, sexo cultual, etc.) (2:11) - isso sim é o mal - e não a vida em sociedade: do voto, do discernimento político, do uso dos recursos, da informação e do dever de interferir no destino político. 
Esse é o paradigma que nós herdamos da Reforma Protestante. Tanto Lutero como Calvino, explicaram o evangelho com forte ênfase em questões sociais (Educação, por exemplo). Os pietistas (1650 ss), que ensinavam a necessidade de uma fé pessoal (conversão), construíam asilos e hospitais, fundavam universidades e enviavam missionários. Os metodistas, descendentes do movimento pietista, pregaram o evangelho e revolucionaram pacificamente ao Inglaterra. O Pr. Batista Martin Luther King foi defensor e militante dos direitos nos EUA. 

2ª Postura: Prática Ativa do Bem (2:15) 
A ênfase é de comportamento exemplar, boas obras e prática do bem nas relações sociais! Somos designados por servos de Deus. Não há ingenuidade em relação a hostilidade da sociedade. No contexto os 
cristãos estavam sendo acusados de más obras: 
*  Recusa em pronunciar juramentos e saudações; 
*  Perturbação por ensinar outros costumes; 
*  Sacrilégio e Ateísmo por não oferecer culto aos ídolos. 
A resposta do cristão à acusação de praticar más obras é fazer boas obras. A identidade do cristão deve estar associada com a causa do bem (não com o "mensalão" ou máfia das sanguessugas). 
Hoje muitos crentes são reconhecidamente apáticos (nos condomínios, no bairro, nas escolas, etc): não são conhecidos pelo mal, mas também não são referências de bondade, como Jesus deseja (infelizmente alguns são antipáticos). 
Somos sal da terra (impedir o progresso do mal) e luz do mundo (proclamadores da verdade) para que os homens vejam as nossas boas obras e glorifiquem a Deus (Mt 5:16). 
Onde praticar o Bem? Primeiro num plano particular, procurando fazer o bem, agindo no nosso microcosmo positivamente. Depois, num plano coletivo, articulando-se para promover o bem e a justiça e o que for saudável para a sociedade maior (macrocosmo). 
As eleições são uma oportunidade para promover o bem, já que são os deputados que fazem as leis (leis = estrutura). Se algo está ruim não é assim por natureza - alguém estruturou assim e alguém vai ter que fazer ficar diferente. O presidente e os governadores administram dentro dessa estrutura criada, embora, segundo as suas prioridades. 
Quando os cristãos se alienam, favorecem o progresso do mal. Por causa da nossa fé em Deus devemos buscar o bem por todos os meios disponíveis, inclusive o voto. A participação consciente é fundamental para fazermos progredir o bem e construirmos uma sociedade mais justa. 
Devemos, então, procurar votar bem, não buscando apenas os nossos interesses, mas os interesses da coletividade, à luz dos valores do Reino de Deus.  Se não votamos bem desvalorizamos o voto e estimulamos algo tipo ditadura: concentração de poder. Depois de votar, orar e acompanhar seu representante. 

Conclusão 
Participe criticamente votando bem! 
Mas como votar bem? 
Ter atitude positiva e desejarmos mudanças: a nossa escolha fará diferença! Valorize o voto e motive a todos a votar bem. Vote em quem defende valores construtivos para a sociedade (não interesses de certos grupos): Votamos em programas (ser crente ou honesto não é programa de governo, é obrigação). 
Pense em quais foram as razões para a candidatura e que idéias defende: 
Recorde o passado: contribuição ou corrupção? 
Avalie as promessas (quanto custa e donde vem o dinheiro?) e as Denúncias (há provas, documentos, testemunhas? O que diz o acusado?). 
A qual partido pertence o candidato? Quem são os componentes? Com quem anda? 
Devemos procurar consistência e coerência partidária. 

Christian Gillis é pastor da Igreja Batista da Redenção em Belo Horizonte, MG.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Evangelho da Gentileza

À medida que o Brasil vai se tornando mais evangélico observamos as marcas culturais do evangelicalismo se misturarem à cultura popular e vice-versa. Missiólogos discutem a influência da cultura nos diversos modelos de evangelho que temos pelo mundo usando dois conceitos, contextualização e sincretismo. 
Entende-se por contextualização a expressão do conceito novo -- a revelação do evangelho -- por meio de formas antigas e facilmente reconhecíveis pelo povo. O conhecido se torna a expressão do novo. Já o sincretismo trata de uma mistura promíscua, indesejada, das novas formas com conceitos antigos. É a revitalização do erro, que se veste com uma fantasia brilhante e aparentemente nova.  
O evangelho no Brasil -- e, acredito, em muitos outros lugares -- se acultura de modo contextualizado e sincrético ao mesmo tempo. Para se discernir entre pureza e corrupção o trabalho é árduo, mas a discussão destes caminhos é hoje essencial para a saúde da igreja. Apenas o Espírito Santo e a Bíblia podem nos tirar do limbo de um semievangelho, que se torna inócuo por ser equivalente. 
Atualmente existe uma guerra entre os evangélicos no Brasil que nada tem de santa. É uma releitura cultural da velha disputa de classes. Apesar de não termos uma cultura de castas, como na Índia, nossa tradição social, baseada em origem e poder econômico, é marcada pela exclusão de grupos sociais. Nos tempos coloniais, a família, o grau de proximidade da nobreza portuguesa, a cor da pele faziam a diferença. Hoje a subcultura à qual pertencemos, a linguagem que falamos, a música que ouvimos revelam o poder socioeconômico que temos. 
As várias versões evangélicas atendem a subgrupos culturais diferentes e fazem concessões teológicas de acordo com a necessidade de cada um deles. O evangelho intelectual das classes dominantes requer uma lógica que se conforme ao discurso pós-moderno. O Deus tribal dos hebreus se transforma em uma força de amor despersonalizada e universalizante. Seguindo o exemplo da Europa multiculturalista, o evangelho palatável à “intelligentsia” tem que relativizar verdades. Não existe adaptação sem comprometimentos. A moralidade bíblica é um peso muito grande a ser carregado. Existe uma proposta de amor no evangelho, mas se exige para esta uma síntese hegueliana. Qualquer maneira de amar vale a pena, qualquer moralidade me diverte, desde que me satisfaça. 
O evangelho das massas populares é simples: a entidade divina se tribaliza. Como qualquer proposta animista, o Deus tribal é pesado em suas demandas tributárias, requer riquezas em profusão e obediência cega às autoridades sacerdotais. Ele tem necessidade de demonstrar seu poder em um jogo intimidatório. As bênçãos são subornos e o Deus tribal dança conforme a música do desenvolvimento econômico e distribui casas, carros zero e cargos políticos, premiando a servidão de seus fiéis. 
Nas duas versões o evangelho de Cristo se torna “o evangelho do profeta Gentileza”. O “amor” do Cristo folclórico não é amor, é entretenimento. Ele é simplório e ridículo. Quem é mais inteligente, o homem ou a lei, o livro ou a sabedoria? -- pergunta Gentileza. O homem, a sabedoria que não está nos livros nem no Livro -- respondemos. E decidimos então apontar as torres de nossas igrejas para o centro da sociedade brasileira -- o homem cordial que a todos agrada. A cultura brasílica, que não gosta de regras impostas, menospreza o Livro e reinventa em duas versões um Deus sem leis e sem moral, que se ocupa de nos servir. 
Concordo com Marisa que a parede cinzenta é mais triste do que se permanecesse pintada com os escritos coloridos do Gentileza. Contudo, não vamos trazê-lo para as igrejas. É melhor deixá-lo nas ruas. 
• Bráulia Ribeiro

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O evangelho dos Evangélicos

“Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” [Jesus Cristo]


Estou convencido de que um é o evangelho dos evangélicos, outro é o evangelho do reino de Deus. Registro que uso o termo “evangélico” para me referir à face hegemônica da chamada igreja evangélica, como se apresenta na mídia radiofônica e televisiva.
O evangelho dos evangélicos é estratificado. Tem a base e tem a cúpula. Precisamos falar com muito cuidado da base, o povo simples, fiel e crédulo. Mas precisamos igualmente discernir e denunciar a cúpula. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé; a cúpula, muita vez é oportunista, mal intencionada, e age de má fé. A base transita livremente entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões afro. A base vai à missa no domingo, faz cirurgia em centro espírita, leva a filha em benzedeira, e pede oração para a tia que é evangélica. Assim é o povo crédulo e religioso. Uma das palavras chave desta estratificação é “clericalismo”: os do palco manipulando os da platéia, os auto-instituídos guias espirituais tirando vantagem do povo simples, interesseiro, ignorante e crédulo.
A cúpula é pragmática, e aproveita esse imaginário religioso como fator de crescimento da pessoa jurídica, e enriquecimento da pessoa física. Outra palavra chave é “sincretismo”. A medir por sua cúpula, a igreja evangélica virou uma mistura de macumba, protestantismo e catolicismo. Tem igreja que se diz evangélica promovendo “marcha do sal”: você atravessa um tapete de sal grosso, sob a bênção dos pastores, e se livra de mal olhado, dívida, e tudo que é tipo de doença. Já vi igreja que se diz evangélica distribuir cajado com água do Jordão (i.é, um canudo de bic com água de pia), para quem desejasse ungir o seu negócio, isto é, o seu business. Lembro de assistir a um programa de TV onde o apresentador prometia que Deus liberaria a unção da casa própria para quem se tornasse um mantenedor financeiro de sua igreja.
O povo religioso é supersticioso e cheio de crendices. Assim como o Brasil. Somos filhos de portugueses, índios, africanos, e muitos imigrantes de todo canto do planeta. Falar em espíritos na cultura brasileira é normal. Crescemos cheios de crendices: não se pode passar por baixo de escada; gato preto dá azar; caiu a colher, vem visita mulher, caiu garfo, vem visita homem; e outras tantas idéias sem fundamento. Somos assim, o povo religioso é assim. Tem professor de universidade federal dando aula com cristal na mão para se energizar enquanto fala de filosofia.
E a cúpula evangélica aproveita a onda e pratica um estelionato religioso: oferece uma proposta ritualística que aprisiona, promove a culpa e, principalmente, ilude, porque promete o que não entrega. Aliás, os jornais começam a noticiar que os fiéis estão reivindicando indenizações e processando igrejas por propaganda enganosa.
O evangelho dos evangélicos é estratificado. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé, e a cúpula é oportunista. A base transita entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões-afro, e a cúpula é pragmática. A base é cheia de crendices e a cúpula pratica o estelionato religioso.
O evangelho dos evangélicos é mercantilista, de lógica neoliberal. Nasce a partir dos pressupostos capitalistas, como, por exemplo, a supremacia do lucro, a tirania das relações custo-benefício, a ênfase no enriquecimento pessoal, a meritocracia – quem não tem competência não se estabelece. Palavra chave: prosperidade. Desenvolve-se no terreno do egocentrismo, disfarçado no respeito às liberdades individuais. Palavra chave: egoísmo. Promove a desconsideração de toda e qualquer autoridade reguladora dos investimentos privados, onde tudo o que interessa é o lucro e a prosperidade do empreendedor ou investidor. Palavra chave: individualismo. Expande-se a partir da mentalidade de mercado. Tanto dos líderes quanto dos fiéis. Os líderes entram com as técnicas de vendas, as franquias, as pirâmides, o planejamento de faturamento, comissões, marketing, tudo em favor da construção de impérios religiosos. Enquanto os fiéis entram com a busca de produtos e serviços religiosos, estando dispostos inclusive a pagar financeiramente pela sua satisfação. Em síntese, a religião na versão evangélica hegemônica é um negócio.
O sujeito abre sua micro-empresa religiosa, navega no sincretismo popular, promete mundos e fundos, cria mecanismos de vinculação e amarração simbólicas, utiliza leis da sociologia e da psicologia, e encontra um povo desesperado, que está disposto a pagar caro pelo alívio do seu sofrimento ou pela recompensa da sua ganância.
Em terceiro lugar, o evangelho dos evangélicos é mágico. Promove a infantilização em detrimento da maturidade, a dependência em detrimento da emancipação, e a acomodação em detrimento do trabalho.
Pra ser evangélico você não precisa amadurecer, não precisa assumir responsabilidades, não precisa agir. Não precisa agregar virtudes ao seu caráter ou ao processo de sua vida. Primeiro porque Deus resolve. Segundo porque se Deus não resolver, o bispo ou o apóstolo resolvem. Observe a expressão: “Estou liberando a unção”. Pensando como isso pode funcionar, imaginei que seria algo como o apóstolo ou bispo dizendo ao Espírito Santo: “Não faça nada por enquanto, eles não contribuíram ainda, e eu não vou liberar a unção”.
Existe, por exemplo, a unção da superação da crise doméstica. Como isso pode acontecer? A pessoa passa trinta anos arrebentando com o seu casamento, e basta se colocar sob as mãos ungidas do apóstolo, que libera a unção, e o casamento se resolve. Quem não quer isso? Mágica pura.
O sujeito é mau-caráter, incompetente para gerenciar o seu negócio, e não gosta de trabalhar. Mas basta ir ao culto, dar uma boa oferta financeira, e levar para casa um vidrinho de óleo de cozinha para ungir a empresa e resolver todos os problemas financeiros.
Essa postura de não assumir responsabilidades, de não agir com caráter, e esperar que Deus resolva, ou que o apóstolo ou bispo liberem a unção tem mais a ver com pensamento mágico do que com fé.
Em quarto lugar, o evangelho dos evangélicos tem espírito fundamentalista. Peço licença para citar Frei Beto: “O fundamentalismo interpreta e aplica literalmente os textos religiosos, não sabe que a linguagem simbólica da Bíblia, rica em metáforas, recorre a lendas e mitos para traduzir o ensinamento religioso.” O espírito fundamentalista é literalista, e o mais grave é que o espírito fundamentalista se julga o portador da verdade, não admite críticas, considerações ou contribuições de outras correntes religiosas ou científicas.
Quem tem o espírito fundamentalista não dialoga, pois considera infiéis, heréticos, ou, na melhor das hipóteses, equivocados sinceros, todos os que não concordam com seus postulados, que não são do mesmo time, e não têm a mesma etiqueta. Quem tem o espírito fundamentalista se considera paradigma universal. Dialoga por gentileza, não por interesse em aprender. Ouve para munir-se de mais argumentos contra o interlocutor. Finge-se de tolerante para reforçar sua convicção de que o outro merece ser queimado nas fogueiras da inquisição. Está convencido de que só sua verdade há de prevalecer.
Mais uma vez Frei Beto: “o fundamentalista desconhece que o amor consiste em não fazer da diferença, divergência”. Por causa do espírito fundamentalista, o evangelho dos evangélicos é sectário, intolerante, altamente desconectado da realidade. O evangelho dos que têm o espírito do fundamentalismo é dogmático, hermético, fechado a influências, e, portanto, é burro e incoerente.
Em quinto lugar, o evangelho dos evangélicos é um simulacro. Simulacro é a fotografia mais bonita que o sanduíche. Não me iludo, o evangelho dos evangélicos é mais bonito na televisão do que na vida. As promessas dos líderes espirituais são mais garantidas pela sua prepotência do que pela sua fé. Temos muitos profetas na igreja evangélica, mas acredito que tenhamos muito mais falsos-profetas. Os testemunhos dos abençoados são mais espetaculares do que a realidade dos cristãos comuns. De vez em quando (isso faz parte da dimensão masoquista da minha personalidade) fico assistindo estes programas, e penso que é jogada de marketing, testemunho falso. Mas o fato é que podem ser testemunhos por amostragem. Isto é, entre os muitos que faliram, há sempre dois ou três que deram certo. O testemunho é vendido como regra, mas na verdade é apenas exceção.
A aparência de integridade dos líderes espirituais é mais convincente na TV e no rádio do que na realidade de suas negociatas. A igreja evangélica esta envolvida nos boatos com tráficos de armas, lavagem de dinheiro, acordos políticos, vendas de igrejas e rebanhos, imoralidade sexual, falsificação de testemunho, inadimplência, calotes, corrupção, venda de votos.
A integridade do palco é mais atraente do que a integridade na vida. A fé expressa no palco, e nas celebrações coletivas é mais triunfante, do que a fé vivida no dia a dia. Os ideais éticos, e os princípios de vida são mais vivos nos nossos guias de estudos bíblicos e sermões do que nas experiências cotidianas dos nossos fiéis. Os gabinetes pastorais que o digam: no ambiente reservado do aconselhamento espiritual a verdade mostra sua cara.

Estratificado, mágico, mercantilista, fundamentalista, e simulacro. Eis o evangelho dos “evangélicos”.
 
Ed René Kvitiz

terça-feira, 12 de abril de 2011

Da necessidade e relevância da Aliança

Entendo uma Aliança Evangélica como um pacto entre pessoas que confessam a Jesus Cristo como Senhor e Salvador, conforme as Sagradas Escrituras que foram definidas institucionalmente pela Igreja, como expressa do consenso dos fiéis, iluminados pelo Espírito Santo, e entendida e explicada pelos Apóstolos, os Pais Apostólicos, os Pais da Igreja e os Reformadores, em cartas, credos, reflexões e confissões.
O presente se constrói tendo como base o passado, pois os que estiveram mais perto de Jesus, no tempo e no espaço, têm mais a dizer sobre a verdade do que os que estão mais longe. Jesus Cristo criou uma única Igreja, que estava institucionalmente cristalizada -em conteúdo (doutrina, ética) e forma (governo, disciplina) - apenas um século depois da sua Ascensão, em todos os lugares: una, santa, católica e apostólica, com o Espírito Santo conduzindo à unidade e à verdade. O cisma é um pecado contra a unidade, e a heresia um pecado contra a verdade; e a Igreja – ontem como hoje – sempre teve que se posicionar enfrentar a ambos, para, atualizada em métodos, ênfases e inculturações, ser o que sempre foi.
Interpretações ou revelações particulares, traços culturais locais, as limitações da mente caída e a vaidade humana têm dividido o Corpo de Cristo, rasgado a túnica inconsútil e transformado a sua esposa em um harém. Chegamos ao século XVI com apenas quatro ramos da Igreja (Nestorianos, PréCalcedônios, Bizantinos e Romanos:Latinos+Uniatas), terminamos a Reforma Protestante com uma meia dúzia a mais (Hussitas, Luteranos, Anglicanos, Reformados, Anabatistas), chegamos ao século XIX com uns 100 e atingimos a escandalosa cifra de 38.000 ao adentrarmos o século XXI, atestando que a Igreja vive em pecado. Para driblar a nossa consciência culpada e a nossa incapacidade de resolução, inventamos a noção sociológica de ‘denominação’, reduzimos o eclesiástico ao comunitário local, adotamos o dualismo neoplatônico entre o organismo (bom/divino) e a organização, instituição (má/ humana), e nos enganamos com uma unidade ‘espiritual’ de uma ‘igreja invisível’ (formada por fantasmas). O pecado do cisma foi eliminado e visto como expressão de um ‘empreendedorismo’ (sai o Espírito Santo; entra o SEBRAE). A Igreja foi des-sacralizada, como mera sociedade, e os seus ungidos transformados em meros executivos.
Uma Aliança Evangélica, se, por um lado, assume a história, a cultura, a caminhada da Igreja, os desafios e os pecados do Brasil, por outro lado ela é herdeira de dois mil anos de catolicidade credal e de quinhentos anos de confessionalidade reformada, ambos com seus conteúdos doutrinários convergentes, tidos como inegociáveis, e marca deidentidade. E, de minha parte, não teria nenhuma razão para me filiar a uma Aliança que não fosse Cristã e Protestante, conforme entenderam os que me transmitiram a fé.
Muitos insistem na visão equivocada de um Evangelicalismo como mera expressão moderada do Fundamentalismo norte-americano, quando esse, em meados do século XX, se transmuta de um movimento confessional e uma sub-cultura extremista. O Evangelicalismo não tem origem norte-americana, mas inglesa, não foi reativo, masafirmativo, não nasceu no século XX, mas no XIX, como herdeiro da Reforma e dos aspectos positivos dos seus derivados: o Puritanismo, o Pietismo, o Avivalismo e o Movimento Missionário. As marcas distintivas: a Autoridade das Sagradas Escrituras,o Sacrifício Vicário, o Mandato Missionário, a Conversão e a Santidade, uniram os evangélicos das várias ‘denominações’, épocas e lugares. Creio que todos nós, que sonhamos e investimos nessa Aliança, fomos convertidos quando confrontados por essa mensagem e instruídos nesse conteúdo, e não vemos por que dele se envergonhar ou pretender mudá-lo ou substituí-lo somente porque haja quem o use indevidamente, ou porque alguns que caminharam conosco não mais confessam essa herança e conteúdo, considerando-a ‘inadequada’, ‘ultrapassada’ ou ‘irrelevante’.
O quadro religioso, dito protestante, brasileiro, é fragmentado, confuso, caótico, escandaloso. Com humildade, mas também com coragem, determinação e audácia, uma Aliança Evangélica – representando os que têm clareza quanto a essa identificação – pode ser um instrumento histórico de Deus. Mas, se partirmos da dúvida, da crise de identidade, da timidez, de elucubrações estéreis, da intolerância interna e da intimidação diante do ‘espírito do século’, não chegaremos a lugar algum.

Que o Senhor nos ilumine!

Robinson Cavalcanti

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O capuz da vergonha

A mãe deles foi infiel, engravidou deles e está coberta de vergonha (Os 2.5)
A mulher fez coisas muito feias. Foi longe demais. Infelicitou muita gente. Tudo veio à tona. De repente, todo mundo debaixo do sol ficou sabendo de suas sujidades. Agora, ela está coberta de vergonha. Não é para menos.
O capuz da vergonha é insuportável. Pode levar ao suicídio. Vergonha é sinônimo de opróbrio, de ignomínia e da desconhecida verecúndia. Significa desonra humilhante, rebaixamento público. É um sentimento penoso e inevitável.
Aqueles que não têm vergonha de pecar, mais cedo ou mais tarde, quando forem apanhados, terão de usar o capuz da vergonha.
Sabe-se bem da primeira vergonha da história humana. Uma vergonha dramática — a vergonha que tomou conta de Adão e Eva logo após a queda (Gn 3.7). Sabe-se da vergonha de Davi, de Pedro e do casal Ananias e Safira. Não são poucos os que se queixam do capuz da vergonha e confessam: “O meu rosto está coberto de vergonha” (Sl 44.15).
O capacete da salvação há de me proteger continuamente do capuz da vergonha!

Retirada de Refeições Diárias com o Sabor dos Salmos (Editora Ultimato, 2004)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Um credo para os fundamentalistas

É só uma sugestão. Acho que posso sugerir, pois fui criado numa denominação fundamentalista e mesmo que não pertença a ela hoje, continuo a ser chamado assim. Portanto, segundo meus críticos, devo entender razoavelmente do assunto.
Creio na inerrância das Escrituras. Isto não quer dizer que eu creio que a Bíblia foi ditada mecanicamente por Deus, que ela caiu pronta do céu, que sua linguagem é científica, que não há erros nas cópias, que as traduções são inerrantes (especialmente a King James), que as cópias em manuscritos existentes são inerrantes, que a Bíblia é exaustiva e que tudo que está na Bíblia é fácil de entender e interpretar. Quer dizer que eu acredito que os manuscritos originais foram infalivelmente inspirados por Deus e que, em conseqüência, a Bíblia é verdadeira em tudo o que afirma. Creio que pelas cópias existentes podemos ter certeza quase plena do que havia nos originais e que muitas das partes polêmicas e difíceis de interpretar não afetam a compreensão correta do todo.

Creio na divindade de Jesus Cristo. Isso não quer dizer que eu negue sua plena humanidade, a realidade de suas tentações, a sua preocupação com os pobres e as questões sociais. Não quer dizer que eu negue que ele foi gente de verdade, capaz de rir, de chorar, que passou por perplexidades e que aprendeu muita coisa gradativamente como as outras pessoas. Quer dizer tão somente que creio que ele era verdadeiro Deus e verdadeiro homem, muito embora eu não tenha todas as respostas para as perguntas levantadas pela doutrina das suas duas naturezas. Creio que sua morte na cruz tem eficácia para perdoar meus pecados, visto que não era um mero homem morrendo por suas próprias faltas. Sua vida, suas ações e seus movimentos podem servir de modelo para mim, embora sua religião não possa, pois ele não era cristão, como eu já disse em outra postagem aqui no blog.

Creio em todos os milagres que a Bíblia relata. Isso não quer dizer que eu acredite que milagres acontecem todos os dias, que milagres contemporâneos são indispensáveis para que eu acredite em Jesus Cristo, que Deus cura somente pela fé e que tomar remédio e ir ao médico é pecado. Também não quer dizer que eu acredite que os milagres narrados na Bíblia foram coincidências com fenômenos naturais, interpretados pelos antigos como ações de Deus, como uma enchente de barro vermelho no Nilo que parecia sangue, um tremor de terra exatamente no mesmo momento em que Josué mandou tocar as trombetas em Jericó ou um eclipse na hora que ele mandou o sol parar. Quer dizer que eu creio que os milagres bíblicos realmente aconteceram conforme estão escritos, que não são mitos, lendas, sagas, estórias ou midrashes. Creio que Deus, se quisesse, poderia fazê-los todos de novo hoje apesar de que, mesmo assim, os incrédulos continuariam a procurar outras explicações.

Creio na ressurreição física de Cristo de entre os mortos. Isso não quer dizer que eu coloque o corpo acima do espírito e nem que eu seja um ingênuo que ignora o fato que cadáveres não revivem cotidianamente. Também não quer dizer que eu ignore as tentativas de explicações alternativas existentes para o túmulo vazio, a falta do corpo de Jesus até hoje e a mudança de atitude dos discípulos. Também não quer dizer que eu acredito que Jesus hoje apareça diariamente às pessoas. Quer dizer que eu creio que ele realmente ressurgiu dos mortos e que vive eternamente com aquele corpo ressurreto e glorioso, com o qual retornará em data não sabida a esse mundo, para buscar os seus e julgar os demais. Creio que a ressurreição de Cristo é essencial para o Cristianismo. Se Cristo não ressuscitou fisicamente dos mortos, o Cristianismo é uma farsa.

Creio que somente mediante a fé em Jesus Cristo como único Senhor e Salvador é que as pessoas podem ser perdoadas e salvas. Isto não quer dizer que eu desconheça o fato de que existem pessoas de bem, honestas, sinceras e de boa conduta entre aqueles que não acreditam em Deus e muito menos em Cristo. Tampouco quer dizer que todos aqueles que têm fé em Jesus Cristo são perfeitamente bons, justos e santos. O que eu quero dizer é que somos todos pecadores, uns mais, outros menos, uns ostensivamente, outros em oculto, e que somente pela confiança no que Cristo fez por nós é que poderemos ser aceitos por Deus – e não por méritos pessoais. Neste sentido, acredito que fora da fé em Cristo não há salvação, perdão ou reconciliação com Deus.

Creio em verdades absolutas. Isto não quer dizer que eu ignore que as pessoas têm diferentes compreensões de um mesmo fato. Quer dizer apenas que, para mim, quando não se complementam, tais diferentes compreensões são contraditórias e uma delas – ou várias – devem estar erradas. Acredito em absolutos morais, em leis espirituais de natureza universal, em declarações unívocas e também que Deus se revelou de maneira proposicional nas Escrituras.

Creio em tolerância. Isto não quer dizer que eu seja inclusivista e relativista, mas simplesmente que não deixarei de me relacionar com uma pessoa simplesmente porque considero que ela está equivocada teologicamente. Para mim, a tolerância pregada pelo mundo moderno é aquela característica de pessoas que não têm convicções, que não têm opiniões formadas sobre nada e que vivem numa perpétua metamorfose ambulante. Eu acredito que é possível, sim, ter convicções profundas – especialmente na área de religião – e ainda assim se manter o diálogo com quem diverge.

Tem mais coisa a ser incluída neste credo fundamentalista, mas tá bom. O que eu quero mostrar é que tem muita gente que tem o mesmo credo acima, e que é fundamentalista sem saber. Alguns ultra-fundamentalistas vão achar que eu sou liberal.

• Augustus Nicodemus é pastor presbiteriano, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em interpretação bíblica pelo Westminster Theological Seminary, Estados Unidos, e autor de, entre outros, “O que Estão Fazendo com a Igreja” (Mundo Cristão).

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A feira da vaidade

É curioso como o imaginário da criança dá uma reviravolta quando ela deixa de ser criança: já agora são outros olhos que, ao olharem as mesmas cenas de antes, enxergam mais aguçadamente nas entrelinhas da história. Em nossa cultura, as crianças costumam crescer embaladas por histórias dominadas por imagens fantasiosas de castelos e palácios, habitados por gente fina que anda em carruagens, cuja boa sorte é realçada pelo contraponto marcado pela presença de alguns aldeões ou mendigos à margem da estrada.
Diferentemente da poesia que na infância eu entrevia em tais imagens, senti-me revoltado quando a suntuosidade majestosa dos palácios de São Petersburgo foi mostrada outro dia num documentário da tevê, em estarrecedor contraste com a narrativa de como, no início do século 18, a opulenta ex-capital da Rússia Imperial foi plantada nos baixios de um terreno pantanoso, a custo do sacrifício de milhares de vidas. Foi como se uma nuvem espessa me impedisse de apreciar a beleza artística da arquitetura que desfilava diante de meus olhos.
Entre os povos da antiguidade não foi diferente: jardins suspensos e esfinges e pirâmides... Nos nossos dias megatorres opulentas vão sendo plantadas, onde quer que jorre petróleo e onde quer que o palácio do consumismo impulsione o capitalismo egoísta e desordenado, qual na “feira da vaidade” da alegoria de Bunyan em “O Peregrino”. Diante dessa “feira”, sinto-me como Paulo na capital da Grécia, “indignado de ver a que ponto esta cidade está cheia de ídolos” (At 17.16, versão ecumênica da S. B. Canadense).
Fico triste ao contemplar a visão materialista do mundo, que supervaloriza e até incentiva o supérfluo, que gasta fortunas astronômicas na ostentação do poder, enquanto povos inteiros passam fome e não têm onde morar, enquanto missionários que se sacrificam para pregar o evangelho de Jesus dependem, o mais das vezes, de um sustento incerto que não lhes permite viver condignamente.
Não é bom que isso aconteça. Não é bom que deixemos a mentalidade do mundo invadir a mente e os hábitos do povo de Deus. Não podemos gastar sequer cinquenta reais com o que não é essencial enquanto esse valor, pequenino para nós, representa tanto para os que deixaram tudo e foram viver entre pessoas carentes de Deus e dos recursos mínimos necessários para a sobrevivência. Seria uma contradição do evangelho que pregamos.


• Antonio Carlos Wagner C. de Azeredo