segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Uma viagem pra dentro de si mesmo

Janeiro é um mês de férias, ao menos, para a maioria. No calendário escolar o ano letivo ainda não se iniciou. Portanto, é tempo de aproveitar.
Como, em nossos dias, aproveitamos bem o tempo? Que significado isso traz? O que se entende por férias? Inquietos e supostamente pensantes, não queremos mais perguntas, queremos é sossego. Pois bem, e o que faz sossegar nossa alma? Ops, escapou…
Essas férias de janeiro, em geral, as famílias, amigos pensam em viajar. Viajar pode ser uma grande aventura, pode ser divertido, pode ser tanta coisa. Parece que em nosso tempo de exibicionismos sem fim, o que vale é você mostrar para onde foi, postar fotos lindas, onde se tenta convencer o outro que você realmente está aproveitando a vida. Ali a intensidade lhe pede licença, os sorrisos ainda são tímidos perto de tudo o que está sentindo e desfrutando, e se você imprimir a boa imagem de um sujeito relaxado e de bem com a vida, se dá por satisfeito por uns instantes.
Estranho, mas aumenta a sensação de que as férias tem se tornado uma grande competição onde os que se sentem atrás, perdendo, forçam ou inventam histórias e criam montagens para também poder esnobar como vitoriosos.
Frei Betto assim coloca: “Por que a ambição de uma viagem ao exterior não se reflete também no desejo de viajar para dentro de si mesmo? Mundo desconhecido, esse que trazemos no espírito. Recolher-se ao silêncio interior é sempre um excelente ponto de partida. Para quem nunca fez essa viagem, a partida assusta, porque não nos é dado o roteiro, e a passagem exterior tenta-nos a abandonar o trem. Se controlarmos ‘a louca da casa’, a imaginação, logo o silêncio interior se faz voz. Então, somos apresentados ao nosso verdadeiro eu”. Ou, em outras palavras mais sucintas, Pascal já dizia: “A causa única da infelicidade do homem está no fato de ele não saber ficar tranquilo em seu quarto”.
Não sou contra viagens, ao contrário, tento apreciá-las melhor cada vez que embarco numa, por mais simples que possa ser. Viajar nos enriquece, ao menos, potencialmente, em termos de cultura. E você não precisa sair do país para isso, aliás, nem mesmo de seu estado, e, às vezes, nem se quer da cidade onde reside.
Viagens, sem dúvida, podem ser um excelente investimento, podem nos acrescentar conhecimentos, belezas, novas referências, e muito mais. Viagens podem ser curtas, singelas, mas valiosas. Elas podem nos marcar positivamente, nos unir, nos ajudar a sair da rotina e ter um descanso diferenciado. Entretanto, por que desprezar, ignorar, ou mesmo, fugir da viagem para dentro? Por que evitar tanto a quietude, o silêncio? É sábio esquivar-se de autoconhecimento, poupar a ampliação da consciência de quem se é? Fernando Pessoa, num de seus versos, faz uma triste constatação: “não sou para mim mais que um vizinho”.
Nem todos menosprezam, evitam ou fogem desesperadamente dos encontros mais profundos consigo mesmo, nem necessariamente, ignoram viagens para dentro de si. Alguns são estimulados através da meditação, de terapias, ou de leituras preciosas. São caminhos diferentes, recursos variados, mas, para mim, nada nos conduz melhor e mais profundamente a isso do que o evangelho de Jesus Cristo.
Discípulos peregrinos no processo aprendem a silenciar-se mais, ouvir melhor. Dedicam-se mais atenciosamente ao que acontece nele e ao seu redor. Interações com a sociedade e com o Reino de Deus. Aprofundam compreensões, sobretudo, vivências. Experimentam uma vida que passa a ser abundante, não porque lhe sobram coisas, tempo, não porque não haja faltas, mas, porque a referência é outra, vem de dentro, de quem lhe habita.
Se a leitura é um recurso importante nas viagens para dentro, a leitura da Bíblia é primordial. A leitura pode ser um instrumento bastante útil na transformação e organização da vida. A leitura bíblica pode ser regeneradora por se tratar de uma palavra-semente viva. A leitura pode ir muito além do que um lazer passivo, trazer sentidos, valores, compreensões que contribuem para novas leituras da realidade, com implicações sociais significativas. A leitura bíblica pode converter nosso coração a Deus, e consequentemente ao próximo, e isso, concomitante ao conhecimento do nosso próprio coração, em sua fragilidade e vulnerabilidades, tesouros e marcas.
Aproveitar a vida, o tempo, as viagens pode ter tudo a ver com a disposição para leitura, ainda mais, com o compromisso saboroso da leitura das Escrituras Sagradas.

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