sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Nathalia e seus 18 anos - Congratulations

Quando soube que você viria eu senti medo.
Não qualquer medo, mas algo parecido com pavor.
Não me sentia preparado. Não sabia como cuidar de você - (na verdade nunca soube).
Já de muito enxergava minhas limitações ao longo dos meus vinte e dois anos de plena “maturidade”.
Não conseguiria protege-la num mundo jurássico cheio de trogloditas idiotizados por um sistema corrompido.
Por isso chorei algumas noites e alguns dias também.
(...) Então chegou o dia! 
- 10 de novembro de 1999 -
Depois de agonizar algumas horas na sala de espera do hospital a enfermeira me chama as 20:30 com você nos braços. 
BOOM!!!!! Você estava lá! Uma explosão de sentimentos.
Você estava lá. E agora?


(...) Cada fase que você atingia era um misto de alegria acrescida de uma profunda preocupação.

O tempo foi passando e eu fui aprendendo que na jornada da paternidade eu não estava só, havia mais Alguém... Onisciente, Onipresente e Onipotente, que Fazia sempre toda a diferença.
Era Ele quem de fato cuidava de você.
Também percebi que por mais que me esforçasse não conseguiria protege-la integralmente.
Foi então que descobri que minha função nessa (sua) história era somente a sua preparação e que você estava SOMENTE e TEMPORARIAMENTE sob meus cuidados e sob minha guarda.
Isso foi doído, mas também libertador. Aprendi que você não era minha, mas D’Ele.

(...) Eu, um “espartano” legítimo e rude, aprendi a ver através dos seus olhos um mundo de menina, um lugar que até então não conhecia. Lugar de delicadezas quase imperceptíveis.
Com você eu pude descobrir meu propósito de vida, minha razão existencial eclipsada nos cantos mais obscuros da minha alma.
Descobri que morreria por você todos os dias, mas também renasceria pra fazer as mesmas coisas todos os dias.

(...) Não sei se fui um bom pai (afinal, os parâmetros ((meu e seu)) são diferentes), mas queria que soubesse que sempre procurei fazer o melhor, na tentativa de fazer (junto com Deus) de você uma grande pessoa. 
Vejo que nosso trabalho (Deus e eu) está dando certo.
Você se tornou alguém muito especial.

Hoje você faz dezoito. Uma idade cheia de símbolos e perspectivas diferentes. Um fim e um começo.
Novas etapas, lutas, sonhos, avanços e realizações.
Não sei precisar por quanto tempo acompanharei seu progresso, mas saiba que o que fiz não é nada perto do que Deus faz.
Não se intimide.
Não tenha medo.
Avance.
Prossiga.
Cante.
Trabalhe muito.
Estude muito.
Aprenda o tempo todo.
Arrisque.
Ame.
Faça a diferença.

Neste 10 de novembro tão especial, agradeço a Deus pela oportunidade tê-la sob meus cuidados. 
Espero estar pronto quando você estiver.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

A igreja e as igrejas: reflexões eclesiológicas à luz da história do cristianismo


Uma questão de permanente interesse para os cristãos é o conceito de igreja, seu significado, sua abrangência e seus limites. O Novo Testamento usa a palavra ekklesia tanto no singular quanto no plural; ou seja, para referir-se a uma comunidade cristã específica — uma igreja local (Mt 18.17; At 8.1; 14.23; Rm 16.5; 1 Co 1.2; 4.17; Fp 4.15; Cl 4.15, 16; Ap 2.1) ou a uma pluralidade dessas comunidades, geralmente em uma determinada região (At 15.41; Rm 16.4, 16; 1 Co 7.17; 2 Co 8.1; Gl 1.22; 1 Ts 2.14; 2 Ts 1.4; Ap 1.4). Mais intrigante, e certamente mais complexo, é o uso do termo no singular com um significado coletivo, com referência a uma realidade mais ampla e mais profunda, como é o caso da passagem clássica de Mateus 16.18. Esse uso teologicamente mais denso do termo também pode ser visto em textos como Atos 20.28 e em várias passagens de Efésios e Colossenses (Ef 1.22, 23; 3.10, 21; 5.23-32; Cl 1.18, 24). 

Mas o que é afinal “a igreja” nesse sentido mais abrangente e mais profundo? O Novo Testamento parece dar uma dupla resposta a essa pergunta. Por um lado, a igreja é uma realidade espiritual e mística, o corpo de Cristo, e como tal é invisível aos olhos humanos (Ef 1.23; 2.16; 4.4, 12, 16; Cl 1.18, 24; 2.17, 19; 3.15). Por outro lado, em um sentido mais concreto e palpável, esse corpo é o conjunto de todos os cristãos (Rm 12.4, 5; 1 Co 10.17; 12.12-27; Ef 3.6; 5.30). Nesta segunda acepção, o Novo Testamento utiliza várias outras figuras para designar a igreja: povo de Deus, família, edifício, rebanho, lavoura de Deus e outras. Em nenhum desses dois aspectos neotestamentários o termo “igreja” refere-se a uma estrutura, a uma instituição, mas é sempre uma realidade invisível, o corpo místico, ou visível, o conjunto dos fiéis.



Igreja institucional

No final do primeiro século e início do segundo, começou a surgir a idéia de que a igreja é uma instituição e que essa instituição consiste essencialmente no colegiado dos seus líderes. Esse foi um período ao mesmo tempo fértil e conflitivo para o cristianismo — um período em que os cristãos precisaram definir com mais clareza a sua identidade diante de múltiplos desafios internos e externos. Entre os desafios internos estava o surgimento de interpretações distintas e por vezes divergentes da fé cristã. Ou seja, o movimento cristão não era monolítico, uniforme ou homogêneo, mas caracterizava-se por uma notável diversidade.

Diante da existência de grupos dissidentes como os docetistas, os gnósticos, os marcionitas, os montanistas e outros, logo surgiu a questão: Onde está a igreja verdadeira e como identificá-la? A resposta foi o que se convencionou chamar de “igreja católica”, expressão essa que surge pela primeira vez na literatura conhecida numa carta do bispo Inácio de Antioquia datada aproximadamente do ano 110. A “igreja católica” passou a ser uma designação da igreja majoritária, do cristianismo normativo, ortodoxo, fiel ao ensino de Cristo e dos apóstolos, em contraste com os movimentos dissidentes, considerados falsos ou heréticos. Essa “igreja católica” do segundo século caracterizava-se por três elementos essenciais: a aceitação de um conjunto de livros tidos como divinamente inspirados (as Escrituras Hebraicas e o cânon do Novo Testamento), a declaração formal dos pontos centrais da fé cristã (o credo, geralmente em forma trinitária) e especialmente a concentração da autoridade nas mãos de um único líder em cada igreja local (o bispo monárquico). Associado a isso, surgiu o conceito da sucessão apostólica.

O bispo, sucessor direto dos apóstolos, passou a ser visto como o guardião tanto da unidade quanto da ortodoxia da igreja. A igreja estava presente onde o bispo, o representante de Cristo, estivesse presente. E o conjunto de todos os bispos constituía a igreja no sentido mais amplo. Quem estivesse em comunhão com os bispos estava na igreja; quem não estivesse em comunhão com os bispos, estava fora da igreja. A partir daí, a identificação da igreja com a hierarquia eclesiástica passou a ser cada vez mais acentuada.



Grupos dissidentes

Uma situação particularmente interessante surgiu no quarto século, no contexto da última perseguição movida contra os cristãos. A partir do ano 303, o imperador Diocleciano e depois dele o seu sucessor Galério tentaram eliminar o cristianismo do Império Romano. Uma das medidas adotadas foi a destruição de cópias das Escrituras. Os líderes eram pressionados a entregar os manuscritos, e aqueles que o fizeram ficaram conhecidos como “traditores” (isto é, “entregadores” e, por extensão, traidores). Aconteceu que, numa eleição episcopal realizada no norte da África, um dos bispos consagrantes do bispo eleito foi acusado de ser um “traditor”. Isso deu início ao chamado cisma donatista (de Donato, um dos líderes do movimento), que resultou numa igreja separada da Igreja Católica e paralela a esta. Na região da Numídia havia, nas mesmas cidades, igrejas católicas e donatistas lado a lado. Foi somente no início do quinto século que o cisma donatista foi eliminado mediante intervenção estatal, medida essa apoiada pelo grande bispo e teólogo Agostinho. Em suma, considerou-se que a igreja donatista não era uma igreja verdadeira, não merecia o nome de igreja.

A partir de então, a Igreja Católica, agora poderosa e aliada do Estado romano, passou a combater sistematicamente qualquer dissidência religiosa. A igreja tornou-se uma organização cada vez mais coesa, monolítica, centralizada no clero e especialmente na figura do bispo de Roma, agora elevado à condição de líder supremo, o papa. Surgiu gradativamente, ao longo da Idade Média, o conceito de cristandade, a visão de uma sociedade unificada tanto política quanto religiosamente, tendo no seu topo as figuras dos reis e dos bispos, do imperador e do papa. Os que ousassem divergir eram duramente reprimidos, como aconteceu com os cátaros, uma seita sincrética do sul da França, que foi eliminada em grande parte por uma série de cruzadas no início do século 13. Foi nesse período que sistematizou-se a punição dos hereges com a criação da Inquisição papal ou Santo Ofício.

Se os cátaros dificilmente poderiam ser considerados seguidores do cristianismo histórico, em face das suas convicções gnósticas e maniqueístas, tal não se poderia dizer de outro movimento francês do século 12, os valdenses (do nome do líder inicial, Pedro Valdés), inicialmente conhecidos como os “homens pobres de Lião”. Caracterizados pelo seu apego às Escrituras e por um estilo de vida simples, os valdenses foram igualmente reprimidos, somente sobrevivendo por terem se refugiado em alguns vales remotos dos Alpes no norte da Itália. O mesmo se pode dizer do movimento iniciado pelo sacerdote inglês João Wycliffe e seus seguidores, os lolardos, no final do século 14. A crítica da igreja medieval com base nas Escrituras, empreendida por Wycliffe, encontrou eco em um sacerdote checo, João Hus, que acabou morto na fogueira pelo Concílio de Constança, em 1415. Seus seguidores, os hussitas ou irmãos boêmios, mais tarde conhecidos como irmãos morávios, constituíram um movimento extremamente equilibrado, bíblico e cristocêntrico, embora estivessem excluídos da igreja oficial. Com o advento da Reforma Protestante, tanto os valdenses quanto os irmãos morávios abraçaram o protestantismo, sendo, portanto, igrejas evangélicas anteriores à Reforma. Todos esses grupos tiveram negado o status de igrejas, embora certamente o merecessem.



A posição dos reformadores

A Reforma Protestante foi, entre outras coisas, um protesto contra a noção de que uma determinada confissão cristã tem o direito exclusivo ao título de igreja. Antes, os reformadores afirmaram que, onde quer que o povo de Deus se reúna para ouvir a pregação fiel das Escrituras e receber os sacramentos bíblicos aí está presente a igreja. Com essa nova mentalidade, o protestantismo abriu as portas para a diversidade dentro do cristianismo. Como a igreja não se reduz a instituições ou estruturas eclesiásticas, os protestantes aceitaram com relativa facilidade a existência de diferentes ramos no seu movimento: inicialmente luteranos, calvinistas, anabatistas e anglicanos; posteriormente, batistas, congregacionais, metodistas e muitos outros. Na cosmovisão protestante não existe a distinção entre clero e leigos — todos são “leigos” (do grego laós, ou seja, “povo”, o povo de Deus) e ao mesmo tempo sacerdotes (1 Pe 2.9, 10).

Ainda que as divisões protestantes tenham seus aspectos tristes e condenáveis, elas implicam o reconhecimento tácito de que nenhum grupo pode arrogar a si o direito de ser a manifestação plena e exclusiva da igreja de Cristo. Nenhuma igreja evangélica, por mais bíblica que se considere, pode, em sã consciência, considerar-se “a igreja”, à exclusão de todas as demais. Existem muitas “igrejas”, no sentido de agremiações cristãs, mas uma só “igreja”, no sentido mais profundo da palavra, o corpo espiritual e invisível de Cristo ou o conjunto de todos os verdadeiros seguidores de Cristo, que inclui pessoas de todas as igrejas, sejam elas protestantes, católicas ou ortodoxas, e até mesmo indivíduos que, por algumas razões excepcionais, não estão filiados a nenhuma denominação cristã. Somente Cristo conhece os que são seus.



Dois exemplos recentes

Diante disso, é estranho que certos evangélicos continuem insistindo na tese de que a sua agremiação religiosa seja “a igreja” por excelência, ou, pior ainda, que uma determinada estrutura eclesiástica possa ser assim considerada. Ainda recentemente, o líder de uma denominação brasileira, referindo-se a um grupo que entrou em conflito com a cúpula da denominação, disse que aquele grupo estava rebelado contra a noiva de Cristo e por isso sujeitava-se a conhecer a ira do Cordeiro, o noivo da igreja. Acrescentou que rebelar-se contra a igreja tipifica a atitude daqueles que se rebelam contra Deus. Essas colocações revelam um lamentável equívoco quanto ao conceito bíblico e evangélico do que é a igreja na sua expressão mais elevada: não é a denominação, a estrutura, a instituição humana, e muito menos a sua liderança atual, e sim o corpo de Cristo ou o povo de Deus, que transcende os limites de qualquer agremiação religiosa. 

No ano 2000, protestantes do mundo inteiro ficaram surpresos com uma declaração oficial emitida pelo Vaticano afirmando ser a Igreja Católica Romana a única igreja verdadeira. O Cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, condenou a aplicação da expressão “igrejas irmãs” às igrejas protestantes (elas seriam somente “comunidades eclesiais”) e o documento Dominus Iesus declarou que as igrejas que não possuem um “episcopado válido e a substância integral e genuína do mistério eucarístico não são igrejas no sentido apropriado”. Líderes denominacionais de todos os matizes teológicos fizeram ouvir o seu protesto, mostrando que alguns pontos controvertidos do século 16 continuam relevantes no início do terceiro milênio. Para os herdeiros da Reforma a questão é clara: a igreja invisível é uma realidade que somente Deus conhece; já a igreja visível é, acima de tudo, o povo de Deus, o conjunto dos fiéis, onde quer que estejam. Nas palavras do apóstolo dos gentios: “Vós sois corpo de Cristo e, individualmente, membros desse corpo” (1 Co 12.27).


Alderi Souza de Matos

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O Amor transforma o trabalho em Ministério

Em Gênesis encontramos uma das mais puras declarações de amor humano: “Então Jacó trabalhou sete anos por Raquel, mas lhe pareceram poucos dias, pelo tanto que a amava” (Gn 29.20). O trabalho escravo pode se tornar um trabalho por amor. O amor transforma todo tipo de trabalho em ministério.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Fé e Crer qual diferença?

Já faz algum tempo que defendo a ideia de que fé e crer possuem significados diferentes. Claro! sei que a maioria das pessoas irão torcer o "bico" num semblante de... como assim?
Costumamos ouvir muita gente dizendo o tempo todo que têm fé e que creem, trocando as palavras e seus conceitos e isso dificulta bastante a compreensão. Mas o que vejo normalmente são pessoas que falam de fé como se fosse esperança. Exemplo: tenho fé que amanhã será melhor, ou tenho fé que as coisas vão dar certo, ou ainda tenho fé que você conseguirá seus objetivos. Penso que este tipo de pensamento ou fala não tem nada a haver com fé, isso é esperança e a Bíblia deixa claro que existe uma grande diferença entre fé e esperança. Logo, se existe diferença entre esperança a argumentação que comumente utilização pode ser num certo momento equivocada.
Mas então o que é crer e o que é fé?
Uma síntese dessa argumentação obtive recentemente numa conversa com alguns adolescentes o que me deixou bastante satisfeito.
Crer é acreditar que Deus pode fazer qualquer, em qualquer lugar e em qualquer tempo. Já fé é colocar minha vida nas mãos de Deus para que ele possa fazer o que quiser, quando quiser e como quiser.
Fé não é determinar profeticamente o que Deus deve fazer por mim ou por alguém. Fé não viver crendo que as circunstâncias irão ficar diferentes. Fé é dispor a minha vida de forma que ela seja moldada aos padrões de Deus e não do mundo. Fé é caminhar com Deus sabendo que a vontade que deve prevalecer é a Dele e não a minha. Fé não é algo que se tem, mas que se vive, assim como está escrito que o justo viverá da Fé.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Restauração... uma história

A história da restauração é mais longa do que a história da civilização. Ela começa na eternidade e termina na eternidade. Embora normalmente a medicação de qualquer doença seja posterior ao diagnóstico, no caso da restauração do gênero humano e da própria criação, a solução do problema do pecado foi arquitetada antes mesmo da entrada do pecado no mundo. Quem afirma isso são dois homens de muito peso na história da igreja. Em sua carta aos Efésios, Paulo declara: “Muito antes que ele [Deus] estabelecesse os fundamentos da terra, ele já pensava em nós e nos escolheu como alvo do seu amor, para nos fazer completos e santos [para nos restaurar] por meio desse amor” (Ef 1.4). Pedro, por sua vez, afirma: “Vocês foram libertados [restaurados] pelo precioso sangue de Cristo, que era como um cordeiro sem defeito nem mancha. Ele foi escolhido por Deus antes da criação do mundo e foi revelado nestes últimos tempos em benefício de vocês” (1Pe 1.19-20).

“A história da restauração continua no Éden”, logo após a queda do ser humano. Deus faz ouvir a sua voz, declara guerra entre a serpente (que representa o Maligno) e a mulher (que representa a humanidade) e acrescenta que a descendência da mulher (uma referência clara a Jesus) esmagaria a cabeça da serpente, e esta feriria o calcanhar do descendente da mulher (uma referência clara à crucificação de Jesus). A restauração viria por meio de Jesus Cristo. Isso justifica a expressão usada por João Batista para apresentar publicamente o Senhor Jesus: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

“A história da restauração continua na história do dilúvio” (um evento registrado não só no Antigo Testamento, mas também na memória coletiva de alguns povos primitivos). Porque todo mundo só pratica o mal, porque a terra está cheia de pecado e violência, porque a vida se tornou impossível sobre a face da terra, Deus resolve restaurar a terra, eliminando toda aquela geração por meio de uma enchente de proporções gigantescas (a água subiu sete metros acima das mais altas montanhas). Com os oito únicos sobreviventes (a família de Noé), há um novo princípio e uma nova história (Gn 6.1--9.29).

“A história da restauração continua com a chamada de Abraão”. Esse homem, casado com uma mulher estéril, deixa pai, mãe e sua terra natal e sai “sem saber para onde ir” (Hb 11.8). Outra vez, Deus resolve começar tudo de novo. Por meio daquele homem, o Senhor iria formar uma nação que teria princípios de conduta diferentes e uma fé diferente. Seria um povo que cultuaria e serviria o Deus original, o Deus que havia criado os céus e a terra e tudo o que neles existe, o Deus puríssimo, sapientíssimo, amantíssimo, graciosíssimo, misericordiosíssimo, justíssimo e terribilíssimo. Mas não em benefício próprio. Esse povo deveria ser o instrumento por meio do qual todas as outras nações conheceriam o Senhor e seriam conduzidas a ele, no tempo e no espaço. Desse povo originaram-se as Escrituras Sagradas e no meio dele o Filho de Deus tornou-se também o Filho do Homem.

“A história da restauração continua e atinge um dos seus ápices maiores quando uma jovem fica grávida sem ter relações com homem algum” (Lc 1.26-38) e quando, ao dar à luz a criança, um anjo do Senhor aparece no céu de Belém e proclama: “Estou aqui a fim de trazer uma boa notícia para vocês, e ela será motivo de grande alegria também para todo o povo! Hoje mesmo, na cidade de Davi, nasceu o Salvador [o Restaurador] de vocês -- o Messias, o Senhor!” (Lc 2.9-11). Em nenhuma época anterior, a história da restauração foi tão viva, tão visível, tão gloriosa e tão emocionante! Pois foi nesse espaço de tempo que Jesus tomou sobre si toda a nossa sujeira e culpa, purgando-as na cruz. Foi nesse espaço de tempo que o véu que separava o ser humano de Deus se rasgou por completo (Mt 27.51).

“A longa e bem-sucedida história da restauração continua com o Pentecostes”, quando o Espírito Santo vem para ficar, quando o Israel de Deus passa a ser a Igreja e começa a reunir judeus e não judeus, quando a Igreja é encarregada de pregar as boas novas tanto aqui como ali, tanto a judeus como a gentios, tanto ao pobre como ao rico, tanto ao homem como à mulher, tanto ao doutor como ao analfabeto -- até que o Senhor volte.

A longa e bem-sucedida história da restauração só vai terminar quando Jesus voltar, quando os mortos ressuscitarem, quando os vivos forem transformados, quando os céus e a terra que agora existem forem destruídos pelo fogo, quando a antiga serpente, a morte e o mundo dos mortos forem lançados no lago de fogo e enxofre e quando começarmos a usufruir dos novos céus e da nova terra!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Deus dá nós recebemos

[Vocês] receberam uma fé tão preciosa como a nossa. (2Pe 1.1b)
A fé salvadora não é uma conquista meritória, fácil ou humana. Ela não nasce aqui: ela vem de cima. Não é um prêmio: é uma graça. O pecador não planta nem colhe a fé salvadora: ele a recebe de presente. Não é o ser humano que levanta a sua mão para apanhar a fé salvadora: é Deus que abaixa a sua mão para entregar a fé salvadora. “A salvação não é o resultado dos esforços de vocês” (Ef 2.9). Pela graça de Deus é que somos salvos, por meio da fé. A graça de Deus gera tanto a fé salvadora quanto a salvação. O máximo que podemos fazer é desejar, suplicar e estender as mãos em forma de concha para que a bondade de nosso Deus a coloque ali.
É assim que Pedro inicia a sua Segunda Carta: “Eu, Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, escrevo esta carta para vocês que, por causa da bondade do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam uma fé tão preciosa como a nossa” (2Pe 1.1).
Na soteriologia cristã, o verbo receber tem supremacia sobre o verbo apanhar, como a palavra fé tem supremacia sobre a palavra obras. Jesus veio para o seu próprio povo, mas os seus não o receberam. Salvaram-se aqueles que creram nele e o receberam (Jo 1.11-12). João Batista acertou em cheio quando declarou: “Ninguém pode ter alguma coisa se ela não for dada por Deus” (Jo 3.27). E a maior de todas as dádivas de Deus é o seu próprio Filho: “Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
— O presente não se compra: recebe-se!

Sem Exceções

No que diz respeito aos meus próprios pecados, é bastante segura (ainda que incerta) a aposta de que minhas desculpas não são tão boas quanto eu imagino.
No que diz respeito aos pecados dos outros contra mim, é seguro (ainda que incerto) apostar que suas desculpas são melhores do que eu imagino.
Por isso temos de começar por prestar atenção a tudo que possa mostrar que o outro não merece tanta censura quanto nós achávamos. Mas, mesmo se ele for absolutamente culpado, continuamos tendo de perdoá-lo; e ainda que noventa e nove por cento da sua aparente culpa possa ser explicada por desculpas realmente convincentes, o problema do perdão começa com aquele um por cento de culpa que ainda resta. Desculpar o que pode realmente ter uma boa desculpa não é caridade cristã, é apenas justiça. Ser cristão significa perdoar o indesculpável, porque Deus perdoou o indesculpável em você.
Isso é duro. Talvez não seja tão duro quanto perdoar uma única grande injúria. Mas como seríamos capazes de perdoar as persistentes provocações do cotidiano (continuar perdoando a sogra mandona, o marido tirano, a esposa implicante, a filha egoísta e o filho salafrário)? Só mesmo, acredito eu, colocando-nos em nosso lugar, acreditando no que dizemos todas as noites em nossas orações: “Perdoa os nossos pecados, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. O perdão não nos é oferecido em nenhum outro termo. Recusá-lo significa recusar a graça de Deus para nós mesmos. Não há indícios de exceções, e Deus sabe bem o que está falando.