sábado, 23 de março de 2013

Como é ser pai?

Recentemente estava indo trabalhar e reencontrei um amigo que não via há tempos. Estávamos no metrô e fomos conversando sobre diversos assuntos e muitas histórias do passado. Entre uma conversa e outra ele me disse que ele e sua esposa estavam planejando ter um filho, só que ainda não tinham certeza se era o que realmente queriam. Daí me perguntou como era a experiência de ser pai.
Bom... aí a conversa tomou outro rumo. Em milésimos de segundo fui absorvido por uma sensação diferente, afinal, falar da paternidade e das minhas duas "garotinhas" não era tão simples. Fiquei pensando no que dizer ao meu amigo e procurando palavras para lhe responder. Queria que ele soubesse que nada do que ele já ouviu ou aprendeu sobre filhos lhe seria suficiente, pois a paternidade lhe causaria uma "ferida" emocional tão exposta que ele ficaria vulnerável pra sempre. Pensei na possibilidade de avisá-lo que jamais lerá um jornal novamente sem se perguntar: "E se fosse meu filho?". Que todo desastre, incêndio ou todo tipo de acidente irão assombrá-lo. Que sempre que ver fotos de crianças famintas ou sofrendo, ele imaginará se há algo pior do que ver o próprio filho (a) morrer.
Achei que deveria avisá-lo que ele deveria usar cada gota de disciplina para manter a casa funcionando, só para garantir que seu filho ficasse bem. Gostaria que ele soubesse que jamais as suas decisões serão rotineiras. Que, para uma garotinha de 4 anos, a vontade de ir ao banheiro feminino num shopping passará a ser uma grande dificuldade quando se está a sós com ela.
Gostaria de advertir ao meu amigo para que ele entendesse que amará muito mais a sua esposa por conta do cuidado que ela terá com seu filhote. Acho que ele se apaixonará pela esposa novamente, mas por motivos que agora não acharia romântico. Queria descrever para o meu amigo a alegria de ver a criança aprender andar, a chutar uma bola, a chamá-lo de "PAPA". Queria apresentar-lhe a risada gostosa de um bebê, do abraço que ele receberá ao chegar em casa depois de um longo e estressante dia de trabalho. Eu queria que ele experimentasse essa alegria, que de tão autêntica, chega a doer...
O olhar inquiridor do meu amigo me fez perceber que meu olhos estavam banhados em lágrimas.
Você jamais se arrependerá disso - Disse-lhe finalmente.

Para o heroísmo nascemos


Quando eu era criança vivia sonhando que podia voar. Queria ter super poderes. Escalar paredes dos prédios como o homem aranha. Queria voar como o Superman. Me esconder numa Batcaverna. Ter o escudo do Capitão América. Queria ter um Super Máquina. Queria ter uma moto do Ships. Queria ser um super herói.
Dai fui crescendo e minha concepção de herói foi mudando. Já não queria mostrar nenhuma associação com as personagens acima. Queria mostrar meu heroísmo através da minha rebeldia. Meus referenciais mudaram e mesmo ainda muito jovem (um menino) os meus heróis passaram ser os anti-heróis da sociedade.
Mas na minha rebeldia e falta de conhecimento, cerca de vinte e três anos atrás eu ouvi uma mensagem que balançou e mexeu com as minhas concepções. Uma mensagem que rasgava meu interior e que eu não conseguia sequer fitar o pregador, era Jesus, dizendo: "Se você quiser Eu posso te fazer um herói". Sem exitar, aceitei e comecei a buscar este heroísmo de uma maneira muito extrema. Passei então por outras fases... Queria ser um pregador famoso, daqueles que pregam para multidões. Queria ser um cantor. Queria ser músico e tocar numa filarmônica.
Mas Jesus me mostrou algo diferente disso. Com o Evangelho surgiram novos referenciais de conduta. Homens e mulheres cujos encontros e caminhadas de vida com Deus os tornam especiais. Pessoas comuns com as quais convivemos ou temos convivido em nossas comunidades, cuja paixão por gente nos constrange (às vezes até incomoda). Pessoas que se candidatam a um campo missionário que não significa necessariamente uma terra distante, podendo ser, por exemplo, o campo dos descamisados urbanos, dos párias ou até mesmo dos marginalizados no seio da própria igreja.
Esses homens e mulheres que por tantas vezes sentam-se ao nosso lado nas celebrações dominicais são nossos heróis contemporâneos, muito embora ignoremos essa possível menção honrosa e pública ou até mesmo suas presenças.
Contudo lá estão eles,  pra nos dizer, na maioria das vezes sem palavras, que a vocação para atos heroicos não é privilégio de alguns. É chamado de todos. Afinal, viver o amor até as últimas consequências, praticar a compaixão e a misericórdia, não deixa de ser uma postura heroica. Talvez anônima e quase imperceptível mas com certeza cativante e encantadora.

Você jamais se arrependerá disso...



Texto enviado ao blog de Ponte Rasa ll em comemoração ao Dia dos Pais


Recentemente estava indo trabalhar e reencontrei um amigo que não via há tempos. Estávamos no metrô e fomos conversando sobre muitos assuntos e muitas histórias do passado. Entre a conversa  me disse que ele e sua esposa estavam planejando ter um filho, só que não tinha certeza se era aquilo que realmente queria. Daí ele me perguntou como era a experiência de ser pai.
Bom... aí a conversa tomou outro rumo. Em milésimos de segundo fui absorvido por uma sensação diferente, afinal falar da paternidade e das minhas duas garotinhas não é tão simples.

Primeiras Coisas...

Olá, a ideia desse blog é responder quatro questões relacionadas a minha jornada de vida.
Dizem que é possível conhecer muito bem uma pessoa lendo o que ela escreve se prestarmos atenção nas entrelinhas, nos sentimentos embutido nos textos e nas histórias relatadas.
É com base nessa teoria que eu comecei escrever este blog.

Vou tentar separar os textos em quatro questionamentos:
Crescimento - Convivência - Construção - Transcendência

  1. Crescimento: Que tipo de gente eu me tornei?
  2. Convivência: Onde estão as pessoas que eu amo e que me amam?
  3. Construção: Qual foi e qual é minha contribuição para o bem das pessoas?
  4. Transcendência: Onde está Deus?
No começo estava preocupado somente em encontrar respostas para a pergunta 4, mas não dá pra viver somente o Transcendente sem o Imanente. Não dá pra gravitar o tempo todo na espiritualidade sem crescer como pessoa, sem conviver com gente e sem construir algo de bom.

Busco justificação para minha simplória existência, mas também e enquanto isso, vou crescendo, convivendo, construindo e tentando transcender. E por isso vou deixar por aqui também alguns dos trabalhos que tenho desenvolvido, histórias de amigos e familiares, teologia e muito blá, blá, blá...

Você poderá ler vários textos dentro dessas categorias e poderá também deixar seus comentários ou entrar em contato através da página de contato. Fique a vontade para comentar e deixar suas impressões.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Oração!



Jesus, ao ensinar os discípulos a orar, os ensinou a pedir a vontade do Pai (Mt 6.10). O Espírito Santo, porque não sabemos orar como convém, intercede por nós falando o que Pai quer ouvir (Rm 8.27). E Deus só faz o que quer, porque quer sempre o melhor (Rm 12.2).
Talvez, diante dessa realidade, sejamos tentados a pensar: falar com quem só faz o que quer deixa pouco espaço para quem com ele fala. E então, embora essa seja a melhor maneira de compreender a profundidade da oração, parece que, para nós, só resta a frase atribuída a C.S. Lewis no filme Terra das Sombras: “Não oro para que Deus faça a minha vontade, mas para que eu seja adequado à vontade dele”.
Oração, portanto, é falar com quem quer sempre o melhor, e, por isso, só faz o que quer. E tem de ser assim, porque nós, seres humanos, a partir de nós, não sabemos o que devemos querer. Sem dúvida, não temos condição de saber o que é melhor, uma vez que nada sabemos do futuro, não interpretamos bem o passado, e, geralmente, somos atropelados pelo presente.
É possível, portanto, concluir que não vale a pena orar, ou que orar não faz sentido, se orar for entendido como levar um pedido, uma dor ou uma angústia ao Todo-Poderoso? Ou que orar só faz sentido se for para louvar, ou para abrir o coração como catarse, ou para confirmar a submissão à vontade do Pai?
Porém, antes de qualquer conclusão, consideremos: na cena apocalíptica, as orações dos servos do Cristo estão em taças de ouro e são postas pelos anciãos diante do Cordeiro vencedor (Ap 5.8). Há quem interprete que todo o desenrolar do Apocalipse é a resposta divina a essas orações. E os anciãos, no seu cântico, dizem que nós, os que cremos, somos sacerdotes que reinam na terra (Ap 5.10). E como sacerdotes reinariam, senão, por meio da oração?
Vejamos: 
1- Abraão teve atendida uma oração que não conseguiu verbalizar. Porque Abraão, orando por Sodoma, pediu que Deus poupasse a cidade se lá encontrasse 10 justos, mas os anjos enviados por Deus para executar o juízo não encontraram tal contingente (Gn 18.16-33). Abraão, ao orar, lembrava-se de Ló. Deus salvou Ló por se lembrar de Abraão (Gn 19.29).
2- Moisés ordenou que o povo de Israel lutasse com os amalequitas porque haviam atacado a Israel. Moisés subiu à montanha para interceder por seu povo. Arão e Hur perceberam que era pela oração de Moisés que a batalha era vencida e sustentaram as suas mãos até Amaleque ser desbaratada (Ex 17.8-13).
3- Josué orou e Deus deteve o movimento do universo (Js 10.6-15). E que beleza a frase que sintetiza esse momento: "Não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele, tendo o Senhor, assim, atendido à voz de um homem; porque o Senhor pelejava por Israel” (Js 10.14).
4- Ana, movida pela aflição e pelo excesso de ansiedade, orou por um filho. Eli, o Sumo Sacerdote, primeiro a julgou embriagada, mas quando a compreendeu, a abençoou. E Deus lhe concedeu um filho, Samuel, porque lembrou-se dela (1Sm 1.10-20).
5- Um anjo lutou 21 dias contra a potestade da Pérsia para atender a oração de Daniel. Disse o anjo: “foram ouvidas as tuas palavras; e, por causa das tuas palavras, é que eu vim (Dn 10.10-14).
6- Jesus, a pedido, fez um milagre antes da hora para manter um estado de festa (Jo 2. 1-11).
7- Jesus atendeu a uma mulher antes do tempo. Ainda não era o tempo do Senhor ser manifesto aos gentios, mas atendeu ao clamor de uma senhora sírio-fenícia e destacou que o fazia por causa da palavra que ela proferiu (Mc 7.24-30).
8- Jesus incitou aos seus discípulos a orar para que Deus permitisse que o inevitável, a chegada do abominável da desolação, acontecesse em tempo onde mais gente pudesse se salvar (Mt 24.15-22).
9- Jesus disse que se um juiz iníquo pode vir a atender a um clamor, quanto mais Deus que é justo (Lc 18.1-8).
10- Paulo orou contra o que havia visto e admoestado (At 27.21-24). Deus, por sua graça, salvou a todos que estavam em estado de morte certa, por tê-los dado ao seu servo, em resposta à sua oração.
Estes são alguns dos muitos exemplos que poderíamos citar!
Por princípio e definição todo desejo de orar é ímpeto para Deus, uma vez que nós, a partir da queda, não buscamos a Deus (Rm 3.11). Logo, qualquer oração, qualquer busca pelo transcendente é fruto da graça mantenedora da Trindade, que, por esta graça, pôs a eternidade no coração do homem, para que possamos alcançar algo da transcendência que é revelada pelas coisas criadas (Ec 3.11; Rm 1.19,20).
Claro, isso não garante que estamos orando da forma certa e nem para a pessoa certa, ou seja, não há garantia de que se esteja orando para a Trindade. Até porque a humanidade perverteu esse ímpeto por meio da idolatria, o que nos torna indesculpáveis (Rm 1.21-23). 
No entanto, os que creram no Cristo, no qual a presença da eternidade no coração pela graciosa salvação encontrou plenamente a sua vocação, sabem que tal querer pela transcendência, assim como a possibilidade de experimentá-la, é resultado de operação divina em si, que em nós opera tanto o querer como o efetuar (Fp 2.13). E orar, que é demanda divina para nós (1Ts 5.17), é parte dos quereres que a Trindade opera e efetua em nós.
Deus só faz o que quer. E tem de ser assim, porque o melhor é sempre o que Deus quer. Mas vale a pena orar, não só para o diálogo necessário à vida devocional de submissão ao Pai (Mt 6.9-13), ou para pedir a sabedoria para o viver (Tg 1.5), ou para a intercessão necessária, diante da batalha espiritual (EF 6.18). Mas, também vale a pena orar a oração da ƒé (Tg 5.15), pois a oração do justo é eficaz e muito pode (Tg 5.16). 
Vale a pena orar, por ser a forma como Deus escolheu atuar na história: Deus nada faz sem revelar a seus servos (Am 3.7), e o faz para suscitar intercessão, como o fez com Abraão (Gn 18.16-18).  Foi como o apóstolo Paulo entendeu que deveria agir, a partir do discernimento que recebeu (At 27.21-24). Vale a pena orar diante de qualquer situação, porque o querer de Deus é mais extenso, abrangente e inclusivo do que qualquer ser humano é capaz de imaginar!

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Ariovaldo Ramos é escritor, articulista e conferencista sobre a missão da igreja. Foi presidente da AEVB (Associação Evangélica Brasileira), missionário da SEPAL e presidente da Visão Mundial no Brasil. Atualmente é um dos presbíteros da Comunidade Cristã Reformada, em São Paulo (SP).

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Teologia Política

Repugnância, nojo, desencanto, desânimo, desilusão são algumas palavras que exprimem o sentimento da maior parte dos brasileiros com o atual quadro político                                  


Realmente dá para ficar desmotivado em participar de algo funesto. Por isso alguns falam em anular o voto ou abster-se como forma de protesto. 
Mas qual é o dever do cristão para com a sociedade e o Estado no qual se encontra? Diante das eleições surge a pergunta sobre como agir nesse momento. 
A Bíblia trata da participação do crente na sociedade e na política: 
No AT: José, Moisés, Josué, os Juízes, Davi, os Profetas, Ester, Daniel, Neemias, Esdras, etc. 
No NT: Rm 13.1-7: Reconhecer que autoridade é instituída por Deus; At 5.29: Desobediência responsável; Lc 20.22: Legitimidade do Estado e dever de pagar tributo; I Tm 2.1-2: Intercessão; Ap 13: Crítica profética. 

O Apocalipse tem uma densa teologia política: Foi escrito a cristãos que se encontravam debaixo de perseguição por parte do Império (para os cristãos era uma questão religiosa; para o Estado uma questão política). O livro é uma denuncia contra o totalitarismo e tirania: nenhum poder terreno é absoluto e só Deus é o soberano final, aquele que vai julgar o mundo. O Cordeiro é apresentado como aquele que derrota aos poderes políticos hostis desse mundo. 

Paradoxalmente, os cristãos em geral, negligenciam sua responsabilidade política. Quais as razões? 
1. Crença de que a política seja em si mesmo suja; 
2. Pessimismo diante da maldade e corrupção humana; 
3. Exagero na ênfase na moral individual e subjetiva; 
4. Falta de entendimento do processo político; 
5. Equívoco quanto a separação entre Estado e Igreja; 
6. Apoio tácito à manutenção da ordem vigente; 

Sempre houve tensão entre a participação e a separação da sociedade e da política. 1º Alguns optaram por uma ruptura total, isto é, sair do mundo. 2º Outros escolheram um modelo de imersão total e acabaram sendo assimilados pelo mundo. A 3º via é uma postura de participação crítica. I Pd 2.11-17  explicita o que é "Participação Crítica". 

Proposição 
Deus deseja que cada cristão ajude a construir uma sociedade melhor. Para isso são definidas duas Posturas Sociais básicas. 

1ª Postura: Sujeitar-se a toda Instituição Humana (2:13) 
As igrejas às quais I Pd se dirige estavam sofrendo uma série de acusações e a tendência natural seria a retração social. Os cristãos são chamados a ter um comportamento social exemplar. Como se dá 
esse comportamento exemplar? 
Sujeitar (hypotagete) significa colocar-se debaixo, submeter-se, cooperar com a missão; sendo diferente de obedecer (hypakuete). Trata-se de submissão, é voluntária - como livres que sois (2:16) - e que não significa concordância cega com o governo: deve ser consciente. Significa respeitar e apoiar o ordenamento sócio-político. 
Submeter-se a instituições humanas. Que tipo de instituições? Instituições para Pedro é a monarquia e as autoridades governamentais (2:13), o trabalho (2:18),  a família (3:1) e a Igreja (5.5). São esses os temas que são abordados aqui.  No Brasil, o poder emana do povo e a Constituição Federal é o poder final. 
Assim, submissão às instituições significa respeitar aquilo que foi constituído pelos homens para organizar a sociedade. No Brasil quer dizer respeitar a democracia, a constituição, a divisão de poderes, o voto. (Numa monarquia envolveria outros valores). 
É respeitar o sistema político, mas sempre discernindo se os atos dos que ocupam o posto visam o bem (autoridades estabelecidas para promover o bem e reprimir o mal). 
Então Pedro está dizendo aos cristãos que não deveriam alienar-se da sociedade ou provocar uma ruptura, mas, pelo contrário, deveriam livremente participar positivamente da mesma. 
O motivo da submissão às instituições é por causa do Senhor. Assim, por causa da lealdade a Jesus é que devemos nos portar bem diante do Estado (e não por que as autoridades são carismáticas ou tragam benefícios a nós). Isso quer dizer que a nossa postura pública não é por causa das instituições em si (como se fossem em si divinas - são humanas), mas por uma causa externa a elas, Jesus Cristo nosso modelo.  Isso torna relativo todo poder humano. 
Talvez alguém pense que participar da sociedade e da política seja mau. Não é essa a compreensão de Pedro. Ele diz que devemos nos abster das paixões carnais (festas a ídolos, orgias, sexo cultual, etc.) (2:11) - isso sim é o mal - e não a vida em sociedade: do voto, do discernimento político, do uso dos recursos, da informação e do dever de interferir no destino político. 
Esse é o paradigma que nós herdamos da Reforma Protestante. Tanto Lutero como Calvino, explicaram o evangelho com forte ênfase em questões sociais (Educação, por exemplo). Os pietistas (1650 ss), que ensinavam a necessidade de uma fé pessoal (conversão), construíam asilos e hospitais, fundavam universidades e enviavam missionários. Os metodistas, descendentes do movimento pietista, pregaram o evangelho e revolucionaram pacificamente ao Inglaterra. O Pr. Batista Martin Luther King foi defensor e militante dos direitos nos EUA. 

2ª Postura: Prática Ativa do Bem (2:15) 
A ênfase é de comportamento exemplar, boas obras e prática do bem nas relações sociais! Somos designados por servos de Deus. Não há ingenuidade em relação a hostilidade da sociedade. No contexto os 
cristãos estavam sendo acusados de más obras: 
*  Recusa em pronunciar juramentos e saudações; 
*  Perturbação por ensinar outros costumes; 
*  Sacrilégio e Ateísmo por não oferecer culto aos ídolos. 
A resposta do cristão à acusação de praticar más obras é fazer boas obras. A identidade do cristão deve estar associada com a causa do bem (não com o "mensalão" ou máfia das sanguessugas). 
Hoje muitos crentes são reconhecidamente apáticos (nos condomínios, no bairro, nas escolas, etc): não são conhecidos pelo mal, mas também não são referências de bondade, como Jesus deseja (infelizmente alguns são antipáticos). 
Somos sal da terra (impedir o progresso do mal) e luz do mundo (proclamadores da verdade) para que os homens vejam as nossas boas obras e glorifiquem a Deus (Mt 5:16). 
Onde praticar o Bem? Primeiro num plano particular, procurando fazer o bem, agindo no nosso microcosmo positivamente. Depois, num plano coletivo, articulando-se para promover o bem e a justiça e o que for saudável para a sociedade maior (macrocosmo). 
As eleições são uma oportunidade para promover o bem, já que são os deputados que fazem as leis (leis = estrutura). Se algo está ruim não é assim por natureza - alguém estruturou assim e alguém vai ter que fazer ficar diferente. O presidente e os governadores administram dentro dessa estrutura criada, embora, segundo as suas prioridades. 
Quando os cristãos se alienam, favorecem o progresso do mal. Por causa da nossa fé em Deus devemos buscar o bem por todos os meios disponíveis, inclusive o voto. A participação consciente é fundamental para fazermos progredir o bem e construirmos uma sociedade mais justa. 
Devemos, então, procurar votar bem, não buscando apenas os nossos interesses, mas os interesses da coletividade, à luz dos valores do Reino de Deus.  Se não votamos bem desvalorizamos o voto e estimulamos algo tipo ditadura: concentração de poder. Depois de votar, orar e acompanhar seu representante. 

Conclusão 
Participe criticamente votando bem! 
Mas como votar bem? 
Ter atitude positiva e desejarmos mudanças: a nossa escolha fará diferença! Valorize o voto e motive a todos a votar bem. Vote em quem defende valores construtivos para a sociedade (não interesses de certos grupos): Votamos em programas (ser crente ou honesto não é programa de governo, é obrigação). 
Pense em quais foram as razões para a candidatura e que idéias defende: 
Recorde o passado: contribuição ou corrupção? 
Avalie as promessas (quanto custa e donde vem o dinheiro?) e as Denúncias (há provas, documentos, testemunhas? O que diz o acusado?). 
A qual partido pertence o candidato? Quem são os componentes? Com quem anda? 
Devemos procurar consistência e coerência partidária. 

Christian Gillis é pastor da Igreja Batista da Redenção em Belo Horizonte, MG.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Evangelho da Gentileza

À medida que o Brasil vai se tornando mais evangélico observamos as marcas culturais do evangelicalismo se misturarem à cultura popular e vice-versa. Missiólogos discutem a influência da cultura nos diversos modelos de evangelho que temos pelo mundo usando dois conceitos, contextualização e sincretismo. 
Entende-se por contextualização a expressão do conceito novo -- a revelação do evangelho -- por meio de formas antigas e facilmente reconhecíveis pelo povo. O conhecido se torna a expressão do novo. Já o sincretismo trata de uma mistura promíscua, indesejada, das novas formas com conceitos antigos. É a revitalização do erro, que se veste com uma fantasia brilhante e aparentemente nova.  
O evangelho no Brasil -- e, acredito, em muitos outros lugares -- se acultura de modo contextualizado e sincrético ao mesmo tempo. Para se discernir entre pureza e corrupção o trabalho é árduo, mas a discussão destes caminhos é hoje essencial para a saúde da igreja. Apenas o Espírito Santo e a Bíblia podem nos tirar do limbo de um semievangelho, que se torna inócuo por ser equivalente. 
Atualmente existe uma guerra entre os evangélicos no Brasil que nada tem de santa. É uma releitura cultural da velha disputa de classes. Apesar de não termos uma cultura de castas, como na Índia, nossa tradição social, baseada em origem e poder econômico, é marcada pela exclusão de grupos sociais. Nos tempos coloniais, a família, o grau de proximidade da nobreza portuguesa, a cor da pele faziam a diferença. Hoje a subcultura à qual pertencemos, a linguagem que falamos, a música que ouvimos revelam o poder socioeconômico que temos. 
As várias versões evangélicas atendem a subgrupos culturais diferentes e fazem concessões teológicas de acordo com a necessidade de cada um deles. O evangelho intelectual das classes dominantes requer uma lógica que se conforme ao discurso pós-moderno. O Deus tribal dos hebreus se transforma em uma força de amor despersonalizada e universalizante. Seguindo o exemplo da Europa multiculturalista, o evangelho palatável à “intelligentsia” tem que relativizar verdades. Não existe adaptação sem comprometimentos. A moralidade bíblica é um peso muito grande a ser carregado. Existe uma proposta de amor no evangelho, mas se exige para esta uma síntese hegueliana. Qualquer maneira de amar vale a pena, qualquer moralidade me diverte, desde que me satisfaça. 
O evangelho das massas populares é simples: a entidade divina se tribaliza. Como qualquer proposta animista, o Deus tribal é pesado em suas demandas tributárias, requer riquezas em profusão e obediência cega às autoridades sacerdotais. Ele tem necessidade de demonstrar seu poder em um jogo intimidatório. As bênçãos são subornos e o Deus tribal dança conforme a música do desenvolvimento econômico e distribui casas, carros zero e cargos políticos, premiando a servidão de seus fiéis. 
Nas duas versões o evangelho de Cristo se torna “o evangelho do profeta Gentileza”. O “amor” do Cristo folclórico não é amor, é entretenimento. Ele é simplório e ridículo. Quem é mais inteligente, o homem ou a lei, o livro ou a sabedoria? -- pergunta Gentileza. O homem, a sabedoria que não está nos livros nem no Livro -- respondemos. E decidimos então apontar as torres de nossas igrejas para o centro da sociedade brasileira -- o homem cordial que a todos agrada. A cultura brasílica, que não gosta de regras impostas, menospreza o Livro e reinventa em duas versões um Deus sem leis e sem moral, que se ocupa de nos servir. 
Concordo com Marisa que a parede cinzenta é mais triste do que se permanecesse pintada com os escritos coloridos do Gentileza. Contudo, não vamos trazê-lo para as igrejas. É melhor deixá-lo nas ruas. 
• Bráulia Ribeiro