sexta-feira, 7 de maio de 2010

Lembranças de minha mãe

Lembro de suas lágrimas quando eu sai de casa aos 17 anos pra viver um sonho que não conhecia.
Lembro das inúmeras vezes que cozinhou para os seis filhos e que chamava um por um pra sentarmos a mesa.
Lembro das inúmeras vezes que me chamou a atenção, querendo me fazer um homem.
Lembro das inúmeras vezes que me aconselhou e me incentivou a lutar pelos meus sonhos.
Lembro de suas palavras quando reclamei certo dia que minha mão estava cheia de calos por causa do trabalho. “mão de homem é assim mesmo”, não pense em parar.
Lembro de muitas vezes que a vi chorar por causas dos problemas financeiros que passamos e pelas dificuldades que suas escolhas lhe trouxeram.
Lembro de suas palavras a respeito de um Deus que me amava.
Lembro de quando criança me levava à igreja e insistia pra que eu ficasse quieto no banco, quando na verdade eu só queria ir ao banheiro. Pra passear é claro.
Lembro do primeiro caderno que ela comprou pra mim, pra que eu começasse escrever. Bom... Na verdade rabiscar.
Lembro que sempre levantava cedo pra nos preparar o café da manhã.
Lembro de suas muitas horas trabalhadas em sua máquina de costura, e lembro quando recebia seu salário gastava prazerosamente com as “coisas” de casa.
Lembro do mingau que fazias pra gente nas tardes frias. Do seu sorriso. Do seu abraço.
Lembro que nas noitas frias ela trazia um cobertor extra e colocava sobre cada um dos filhos.
Lembro de sua dedicação quando ficavamos doentes. Que cuidado!
Lembro também, claro, das inúmeras vezes que “apanhei”. Como poderia esquecer-me disso.
Lembro – me de muitas coisas e também acho que me esqueci de muitas outras, mas mãe com certeza nunca me esquecerei da senhora. Te amo!

Lápis, borracha e caneta

Porque não usamos mais lápis e borracha e só escrevemos de caneta?
Lembro-me quando criança que na escola éramos advertidos pela professora, a não escrevermos de caneta, porque era certo que iríamos errar.
Hoje já não uso mais lápis, quem dirá borracha, será que eu não erro mais e por isso estou livre para escrever de caneta?
Que grande tolice!
Continuo errando como nunca, algumas páginas da minha vida estão borradas, porque a borracha não limpa de todo, sempre fica marcada.
Mas a vantagem que se tem é que, com o lápis, podemos escrever de novo, por cima, já a caneta...
É, depois inventaram o branquinho que apaga até mesmo tinta de caneta.
Porem ficava muito visível o erro, deixava mais branco que a própria folha.Eu gostava mesmo era da borracha!
Aqueles esfregões que dávamos faziam com que ela se apequená-se, e o que dizer dos farelos que soprávamos, que se espalhavam pela folha, pela mesa e por todo o chão.
Vivemos dias que não podemos errar, chorar e falhar querem ver em nós a perfeição, o modelo e o exemplo.
Mais como?Visto que o processo de aprendizagem acontece também pelos nossos erros!
Lembro-me também que o uso da caneta veio aos poucos, principalmente em dias de provas, ficávamos ansiosos para usarmos a caneta. Sim eram dias decisivos para testar o que havíamos aprendido depois de errar bastante é claro!O que fosse escrito estava escrito não tinha como apagar depois!
Penso assim na vida, tem momentos que temos que usar a caneta são aqueles dias de provação, onde somos colocados frente a frente com a tentação, com o mal, são dias decisivos que escrevemos para sempre a historia da nossa vida sendo responsáveis de alguma maneira pelas atitudes que tomamos e o caminho que seguimos.
Mais não é sempre assim, e devemos continuar usando nosso lápis e borracha sem esquecer também da nossa caneta.
Andrew Roger

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Correção...

Precisamos corrigir os rumos de nossa peregrinação interior, desconstruindo a imagem internalizada de um Deus severo, para encontrarmos o Deus da graça e do amor. Face ao amor incondicional de Deus, podemos também desconstruir a imagem enganosa que temos de nós mesmos, baseada na justiça própria, para encontrar nosso verdadeiro eu: pecador, fraco, carente.
Amparados nesta verdade, somos encorajados a viver e aprofundar cada vez mais a realidade última que nos revelam as Escrituras: somos pecadores amados por Deus, que nos fez seus filhos.

Pensar, um ato de Fé

Uma das contribuições mais importantes do protestantismo para a história foi a concessão de liberdade à interpretação bíblica — em última análise, um estímulo à autonomia do próprio pensar, terreno vasto e fértil. Tal movimento, naturalmente, pressupunha riscos, como o surgimento de aventureiros, estelionatários e pervertedores da doutrina apostólica, um preço que o cristianismo já pagava e continua pagando até nossos dias. Ainda assim, a dinâmica da fé evangélica (no sentido mais amplo da palavra) é tributária deste privilégio à reflexão.

Curados e Curvados

Os noticiários não deixam dúvidas, vivemos numa sociedade adoecida. São muitos e variados os sintomas. Doentes adoecendo outros. Feridos que se aprimoram em ferir.Manifestações de violências que nos habitam e trazem sérias consequências ao contexto que nos cerca. Perversões sexuais vêm à tona e ganham as primeiras páginas dos jornais e capas de revistas. Escândalos se multiplicam graças à falta de ética, de responsabilidade e de cuidados necessários para se viver razoavelmente em comunidade.Criatividade em prol da corrupção, com esquemas assustadores que vão sendo assimilados como rotina, na qual o conformismo é quase natural. Todos estão ocupados demais para se envolver em alguma causa, aderir a mobilizações, alçar a voz, agir em favor dos direitos humanos.O que o evangelho tem a dizer em nossos dias?Eugene Peterson em Espiritualidade Subversiva diz que "mais profunda e forte que a nossa enfermidade é a nossa cura". Desde que passamos a conhecer o bem e o mal, fomos acompanhados pela promessa da esperança - um redentor. Num longo processo de restauração, Deus forma um povo a partir de Abraão com a promessa de bênção para todas as famílias da terra (Gn 12.3). Uma aliança de misericórdia e amor é feita. Contudo, o pecado nos adoeceu de tal forma que, apesar de Deus falar, ensinar, mostrar, se revelar, nossa rebeldia é constante. O Antigo Testamento mostra a trajetória de um povo negligente, oscilante, idólatra, ingrato, arrogante, que dá as costas para Deus, um Deus que nunca deixou de amar.Deus fala de uma Nova Aliança. Jesus vem nos explicar melhor, vem dar-se. Jesus vem a fim de que não restem dúvidas, vem sabendo que é necessária uma libertação profunda, que o estado é terminal, mas que o amor é o maior poder. O amor passa a ter rosto, pele, cheiro e nas relações com ele pessoas são curadas. Ele faz questão de deixar claro: "Os sãos não precisam de médico e, sim, os doentes. Não vim chamar justos, e, sim, pecadores ao arrependimento" (Lc 5.21-32).O problema é tratar doente que não quer ser tratado. Muitos se recusam, até mesmo cientes. Porém, enquanto não admitir que sou doente, posso não entender do que preciso me arrepender. Consequentemente Jesus e sua vinda não fazem sentido algum. Eu me basto. Posso continuar doente achando que estou saudável, recusando e fugindo de qualquer tratamento, ou até buscando confusamente a cura num amor que não se realiza por se tratar de fonte errada. A arrogância confunde pouco caso com proteção. Infeliz ignorância! Como diz Paulo Brabo, "Jesus evidentemente não veio para os santos, os intocados, os poupados, os intocáveis, os que merecem uma categoria à parte. Sua paixão é pelos mistos, os imundos, os misturados, os irremediáveis, os caídos, os violados, os atormentados, os não resolvidos". Como então nos definimos?Há uma cura, profunda e forte, a ser experimentada por aqueles que abandonaram tipos, máscaras, que baixaram seus muros de proteção que nada protegiam; afinal, a doença não estava fora, mas dentro. O amor de Deus é um verdadeiro processo terapêutico em longo prazo.Aquele que foi ferido agora trata das feridas daqueles que se percebem feridos. O profeta Isaías estava correto: "nele somos curados" (Is 53.5).Há uma cura radical para os confinados em suas misérias, em suas feridas, antes definitivas. Agora, Cristo faz novas todas as coisas (2Co 5.17). Ele define tudo de maneira nova.Agora, os feridos em tratamento podem partilhar sua experiência, dizer do remédio, atentar ao tratamento, zelar pelas recomendações do médico de nossa alma.Boas novas para os nossos dias! Nesse tempo de extremos podemos testemunhar, mostrar nossas próprias feridas, deixar que elas sirvam. Deus transforma, como percebeu José no Egito (Gn 50.19), o mal em bem.A cura nos faz cada dia mais humildes. E não há mérito nisso. Simplesmente é a conclusão de quem se relaciona com Cristo. Diante de Deus o que nos resta? O que sobra de nós para lhe oferecer? Nele revemos toda nossa postura. Nossa completa inadequação é exposta. Pode ser bastante dolorido, mas tudo é acolhido de forma amorosa por aquele que continua vindo ao nosso encontro.Diante da grandeza de Deus e seu amor curador, vemos que nada somos sem sua graça e misericórdia. Nosso próximo é mais igual do que imaginávamos. Todos nos curvaremos, cedo ou tarde.Hoje, nossa sociedade precisa ver mais gente curvada diante de Deus. É fato que o pecado, em certo sentido, também nos curva. As injustiças, a desigualdade social, deixam grande parte da população prostrada em suas misérias e lamentos. O pecado, em última análise, nos curva diante da morte. Mas, aqueles que verdadeiramente se relacionam com Jesus se curvam espontaneamente em temor, alegria e amor.Que a nossa vida mostre mais sobre quem é Jesus e os efeitos de seu amor restaurador em nossa vida.
Taís Machado (Ed. Mundo Cristão)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O que é crise (parte 1)

Como complemento da postagem publicada no dia 29 de abril "Crises" o irmão Andrew Roger nos enviou este texto como um Raio X da crise. Vale a pena ler, afinal, o texto é de Leonardo Boff.
Que significa crise ? Todos falamos da crise econômica que provoca uma rede de outras crises. Geralmente vivenciamos a crise como algo ruim; anormal e que não deve ser. Suas manifestações são notórias: desemprego, fome, desespero.O objetivo desta reflexão é mostrar que a crise é necessária (por isso inevitável) a todo processo de vida (econômica, social, pessoal), porque este processo jamais é linear, mas se dá por rupturas e novas retomadas.A crise estoura de tempos em tempos para permitir que a vida continue vida e se possa desenvolver.Ela não é, portanto, um sintoma de doença mas de saúde.Não é algo a ser deplorado mas a ser explorado.Tudo depende de como enfrentamos a crise.Há formas de enfrentamento que não acolhem os desafios da crise no sentido da criatividade e daí da superação da crise; geralmente minorias beneficiadas por um certo tipo de arranjo social, agora em crise, se opõem à mudança necessária e impedem as decisões implicadas na tranformação. Há formas de enfrentamento que captam os desafios, introduzem as rupturas exigidas, abrem um caminho promissor e conferem novo sentido à vida social, econômica e política.A crise é o que é: um fenômeno que pertence a tudo o que é orgânico, como a vida e a sociedade.As atitudes em face da crise produzem bons ou maus frutos.Vejamos, rapidamente, a fenomenologia da crise e em seguida seu sentido.Vive-se um arranjo social fruto de certo equilíbrio de forças; este possui, como todas as coisas, um alcance e um limite, vale dizer, um leque limitado de realização de possibilidades.Ao esgotar-se este leque (o processo chega a um certo patamar de evolução em que deve mudar qualitativamente) produz-se um desequilíbrio; o cosmos (ordem) pode virar caos. As forças em efervescência buscam novo equilíbrio.Uma decisão vigorosa que colhe a dinâmica das forças em tensão cria um novo equilíbrio e a história segue adiante. Formalizando a crise, podemos dizer:(1) uma ordem termina;(2) gera-se uma cisão que aglutine as forças, se produz uma nova ordem (bloco Histórico em nossa sociedade de classes);(3)se houver uma de – cisão que aglutine as forças, se produz uma nova ordem (bloco histórico em nossa sociedade de classes);(4)este novo arranjo via realizar as novas possibilidades criadas até que estas também entrem em crise.De crise em crise prossegue a história em seu curso.Para onde ?Cabe à filosofia e à teologia responder.A origem filológica da palavra crise nos ajudará a entender o processo crítico pelo qual passamos atualmente.Crise tem em sua raiz a palavra sânscrita Kri que significa limpar, desembaraçar e purificar. As palavras crisol (cadinho) e acrisolar (depurar, purificar) guardam o sentido originário do sânscrito.Crise, portanto designa a chance de purificação, o processo de depuração do que vale ou não vale; o crisol desembaraça o ouro de suas gangas.Isso só ocorre se houver separação e ruptura; é o aspecto dramático da crise; nela se acrisolam os dados positivos que vão constituir os fundamentos da nova ordem.
Enviado por Andrew Roger

O que é crise (parte 2)

Como complemento da postagem publicada no dia 29 de abril "Crises" o irmão Andrew Roger nos enviou este texto como um Raio X da crise. Vale a pena ler, afinal, o texto é de Leonardo Boff.
De crise vem critério que designa a medida pela qual dis – cri – minamos e separamos o autêntico do inautêntico.No campo social a crise somente é superada, dizíamos acima, quando uma de – cisão eficaz abre o caminho de solução.A de – cisão que costura a cisão pertence ao processo do enfrentamento positivo da crise.Ora, este é sentido principalmente da palavra krisis em grego que subjaz também à crise em português.Quando cai a decisão (krisis) num processo judicial, acabou o impasse dos prós e dos contras; estabelece-se uma nova realidade; igualmente a decisão do médico, analisando os sintomas da doença, muda o rumo da apreciação ( krinein em grego significa julgar).São João, no seu evangelho, usa cerca de 30 vezes a palavra crise, no sentido de decisão, juízo e ruptura.Jesus é a derradeira crise para o mundo (Jo 3,1-21; 3,31-36); sua atuação produz crise nos ouvintes: devem decidir-se, pró ou contra; a crise introduz a divisão entre a luz e as trevas (Jo 3,19-20) ou entre a vida e a morte (Jo 5,24).Crise, portanto, é oportunidade de uma decisão que pode produzir um acrisolamento e uma purificação.A crise é sim uma descontinuidade mas normal no processo de vida; não é sinal de uma catástrofe iminente, mas o “momento crítico” em que a inteira sociedade se questiona sobre o tipo de relações que possui e qual é seu destino coletivo.Como dizia Ortega y Gasset, que em 1942 escreveu um dos mais lúcidos ensaios sobre a crise (Esquema de las crisis y otros ensaios):“A crise é um momento histórico em que não muda algo no mundo, mas em que o mundo inteiro muda.”A crise se dá no processo de passagem de um mundo (ou de uma ordem) para outro ou de um sistema econômico a outro.Dizíamos que a verdadeira questão não é a crise, mas as atitudes em face dela. Vamos considerar, rapidamente, algumas delas:Os apocalípticos: são aqueles que vêem a crise como uma catástrofe e um fim do mundo (daí apocalípticos); na verdade não acaba o mundo mas um tipo de mundo, aquele no qual vivem e se beneficiam.Bem dizia um pedagogo e filósofo suíço que ama muito o Brasil, Pierre Furter : “Caracterizar a crise como sinal de um colapso universal é uma maneira sutil e pérfida dos poderosos, dos privilegiados, para impedirem, a priori, as mudanças, desvalorizando-as de antemão.”São de tal maneira contra que não possuem quase nenhuma coisa pela qual poderiam estar a favor.Há os arcaizantes: são aqueles que se agarram às fórmulas do passado; procuram para os problemas de hoje as respostas de ontem.Permanecem na crise.Há os futuristas: são normalmente as vanguardas sectárias, os críticos mais audazes mas com soluções que não integram os principais elementos dos problemas, capazes de criar um consenso novo e promissor.Podem ser brilhantes, mas geralmente são estéreis.Há os escapistas : são aqueles que encontraram uma solução somente para a sua classe e escapam para este mundo reconciliado. Fecham-se sobre suas fórmulas tecnocráticas e não dão ouvidos a mais ninguém. Estiolam na crise.Há os res – ponsáveis : são aqueles que não fogem nem para frente, nem para trás, nem para dentro, mas procuram dar uma res – posta (daí responsáveis que vem de responsum em latim ) adequada às forças em presença; aprendem do passado , mantêm-se abertos ao futuro, não temem as rupturas necessárias, sem perder o sentido do todo; vêem na crise chance de crescer, para isso mudar, acrisolar-se de gangas do passado, decidir-se para ser mais.A superação da crise não se faz pelo ativismo ou pela excitação, mas pela lucidez que identifica o nó problemático, pela decisão do corte que põe termo à decomposição e pelo projeto novo adequado ao chamado da hora.A quem a última palavra ?Todos nos encontramos dentro de uma situação-de-crise.Importa definir-se bem dentro dela, especialmente os que ocupam os lugares sociais de decisão.Se houver res-ponsáveis, até a crise econômica terá um desfecho feliz.Platão sabiamente advertia em sua Politeia : “Todas as coisas grandes acontecem no meio de um grande risco.” {Jornal Folha de São Paulo – OPINIÃO (Tendências /Debates) Quinta-feira 07 de julho de 1983. P. 3} Leonardo Boff (téologo)
Enviado por Andrew Roger