segunda-feira, 19 de julho de 2010

Meu filho é Homem. E agora?

Meu nome é Joquebede, que quer dizer “Jeová é a minha glória”. Tenho algumas lembranças muito tristes, como o estupro de minha tia Diná e a vingança cruel que meu pai Levi e meu tio Simeão infligiram aos siquemitas. Sou casada com Anrão, que é meu sobrinho. Para mexer comigo, meu marido, de vez em quando, ele me chama de tia. Somos tementes a Deus. Acabamos de sair do Egito e estamos acampados ao pé do monte Sinai. Faraó custou a nos deixar sair e só o fez depois de grandes manifestações de julgamento da parte de Deus. Meus filhos Moisés e Arão
foram os instrumentos que Deus usou para nos retirar do Egito. Nosso destino é Canaã, a terra que mana leite e mel, prometida aos nossos antepassados Abraão, Isaque e Jacó, que a percorreram de ponta a ponta. Estou bem avançada em anos. Não sei se chegarei até lá. Mas sinto-me realizada e profundamente grata a Deus por todos os seus benefícios. Salvo do genocídio
Estou me lembrando agora de quando fiquei grávida pela terceira vez, há oitenta anos. A essa altura já tínhamos uma filha e um filho: Miriam e Arão. Os tempos eram muito difíceis. Faraó começava a apertar o cerco contra nós. Não valia a pena colocar mais filho no mundo. Anrão e eu evitávamos o relacionamento físico naqueles dias em que certamente poderia ocorrer uma gravidez. Mas houve um lapso e fiquei esperando um bebê. Orávamos diariamente para que fosse uma menina, porque Faraó havia ordenado a matança pura e simples de qualquer criança do sexo masculino nascida entre os hebreus. Era uma questão de segurança nacional, justificava o rei do Egito. Achamos por bem esconder a gravidez. Então passei a usar roupas ainda mais largas. De vez em quando uma comadre me dizia que eu estava engordando e eu, naturalmente, concordava com ela para encerrar a conversa o mais rápido possível. O parto foi bem discreto: meu marido mesmo cuidou de mim. Não era a menina que havíamos pedido insistentemente a Deus, mas um menino robusto e formoso. Todos nos entreolhamos e assumimos a situação. Como ninguém sabia da gravidez, resolvemos ocultar também a própria criança. A tarefa não foi fácil. As fraldas eram lavadas e estendidas dentro de casa para não chamar a atenção das pessoas. Acho que nenhum recém-nascido tomou tanto mel quanto esse nosso filho: mal ele começava a chorar, Miriam pingava uma gota de mel na boca do garoto. Se insistisse no choro, a família inteira entoava o mais alto possível os cânticos do Senhor. Éramos conhecidos como a família cantante. Não podendo escondê-lo por mais tempo, calafetamos com betume e piche um pequeno cesto de junco e nele colocamos o menino, então com 3 meses de idade. Eu mesma levei o cestinho e o larguei no carriçal à beira do rio Nilo, nas proximidades do sítio onde a filha de Faraó costumava banharse. Era um lugar mais ou menos seguro, longe da correnteza, a salvo dos crocodilos, da famosa tilápia nilótica (que chega a pesar 90 quilos) e do peixe-elétrico (que é capaz de produzir uma descarga de 300 a 400 volts). Meu medo maior era de um tipo de cobra venenosa chamada naja haie, comum no Egito. Mas todo o nosso plano foi preparado na presença e na dependência de Deus, com muita oração. Desde o nascimento do menino, tive o pressentimento de que ele era formoso também aos olhos de Deus. Voltei para casa e deixei Miriam nas proximidades do lugar onde o menino ficara. Deus fez infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos. O plano deu certo. A filha de Faraó desceu ao rio dos rios e logo viu o estranho cestinho. Curiosa, ela mesma o tomou e o abriu. Meu filho chorava — estava molhado de xixi, com fome e sem as gotinhas de mel de Miriam — e a princesa se ligou imediatamente a ele. Ela era uma das sessenta filhas de Ramessés II e se chamava Merris. A jovem logo percebeu que o menino era filho de hebreus e o adotou. Nesse momento, Miriam entrou em cena e se ofereceu para chamar uma mulher hebréia para amamentar a criança até o desmame. A princesa deu o seu consentimento — afinal o garoto estava morto de fome e chorava sem parar. Minutos depois, lá estava eu com meu próprio filho ao seio, sem que Merris soubesse que eu era a mãe dele. Por ironia da história, até recebi salário para cuidar do menino. A filha de Faraó deu-lhe o nome de Moisés, que significa “salvo das águas”. Só então percebi que nossas orações devem ser flexíveis e inteiramente sujeitas à vontade e à sabedoria de Deus. Felizmente, o Senhor não as ouviu ao pé da letra, quando lhe pedíamos que viesse uma menina e não um menino. Além de alimentar Moisés e lhe dispensar outros cuidados físicos, transmiti-lhe as primeiras impressões e informações recebidas de nossos ancestrais sobre Deus e sobre o nosso povo. Porém ele foi educado em toda a ciência dos egípcios. Tornou-se um homem poderoso em palavras e obras. Aos 40 anos, ele recusou ser chamado filho da filha de Faraó e se identificou conosco, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado. Abandonou o Egito e permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível. Mais tarde, já casado e com dois filhos, Deus lhe apareceu na terra de Midiã, numa chama de fogo, e o comissionou para liderar o êxodo de Israel. Ao voltar ao Egito, aconteceu uma coisa terrível: Deus veio ao seu encontro numa estalagem e o quis matar. Pode parecer muito estranho o Senhor querer destruir o instrumento que Ele mesmo escolheu, preparou e equipou. Moisés e Zípora, sua mulher, logo entenderam que tratava-se de uma advertência divina para que eles circuncidassem os filhos, cumprindo assim “o sinal da aliança” dado por Deus a Abraão e aos seus descendentes. Quanto ao êxodo e à nossa viagem até aqui, ao pé do monte Sinai, privo-me de narrar todos os fatos para não me alongar demais. Há vários dias, Moisés se encontra no alto do monte de Deus. Aqui embaixo há uma certa inquietação e uma movimentação que começa a me preocupar. Estou orando muito por Arão, três anos mais velho que Moisés. A responsabilidade dele é muito grande.
Elben M. Lenz Cézar (Deixe que elas mesmas falem)

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