terça-feira, 6 de julho de 2010

O que um esposo espera de sua esposa

A letra de uma antiga canção popular brasileira, Emília, diz: “Eu quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar; e que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar”. Essa afirmação reflete muito do machismo cultural do povo brasileiro, que vê na relação conjugal a esposa como serviçal: Amélias e Emílias da vida.

Tal machismo remonta aos primórdios de nossa colonização pelo “civilizado” homem europeu. Ele chegava ao nosso continente, usava as nativas para a sua satisfação sexual egoísta e retornava para o seu lar, que havia ficado sob os cuidados e administração de sua esposa.

O machismo histórico brasileiro cria duas fantasias a respeito da mulher: a mulher serviçal, que deve ficar em casa e cuidar da administração do lar e da educação dos filhos, servindo ao marido em todos os seus mimos quando ele volta para casa; e a mulher sensual, fogosa, cheia de volúpia e pronta a dar o prazer sexual ao homem desejoso.

Essas fantasias são, na mente masculina, irreconciliáveis, o que leva muitos homens a tratarem mal suas esposas e terem casos fora do casamento.

Na realidade, o que um homem espera de sua esposa é que ela o ajude na construção de sua auto-imagem, sua identidade como homem, esposo, pai, cidadão, profissional!

A cada dia que passa, a sociedade impõe um desempenho maior ao homem, tanto na vida pessoal como profissional, e isso faz com que ele sinta-se incapaz de atender a todas as expectativas e demandas que lhe são impostas. Ele sente-se fragilizado e precisa de alguém ao seu lado que o incentive e ajude nessa caminhada.

Essa é a principal tarefa da esposa: ajudar na construção da auto-imagem de seu marido, o que em última instância, é o que ele espera dela. Nesse sentido, ela cumprirá o seu papel de ézer knegdo, que em hebraico significa “auxiliadora idônea”, como descrito em Gênesis 2.

Não se trata de uma auxiliar de serviços, como cultural e erroneamente este texto tem sido interpretado muitas vezes, mas de alguém que vem em meu auxílio para me ajudar em algo que eu não posso fazer sozinho. (O mesmo termo é atribuído a Deus, quando o salmista nos diz que Ele é nosso auxílio e socorro bem presente no momento da tribulação).

Assim, a esposa cumpre um papel que não pode ser cumprido por qualquer um, pois é preciso haver intimidade para o marido aceitar ajuda, ou mesmo para reconhecer que precisa ser alentado na construção de sua identidade e auto-imagem.

Infelizmente nosso machismo cultural leva o homem não só a bloquear sua percepção dessa necessidade, como também a recusar qualquer tipo de ajuda de sua companheira para seguir adiante na valorização de si mesmo de forma saudável e positiva. Como conseqüência dessa negação, o homem se isola em seu “ninho televisivo” ou afunda-se em compulsões (álcool, drogas, esportes etc.) e relaciona-se com a esposa num padrão objetal (uso do outro) e insaciável (sempre insatisfatório) — a não ser que a esposa se torne “Amélia” ou “Emília” (serviçal no lar) e aceite que o marido tenha amantes fora de casa. Mas aí será ela que terá de anular-se como pessoa.

Reconhecer que o modelo idealizado por Deus na criação para a relação conjugal é um modelo de saúde integral e procurar viver nesse padrão — não a partir da interpretação cultural machista que muitos impõem ao texto — é o melhor que o casal pode fazer na busca da realização conjugal. E essa é uma tarefa de construção contínua...

Carlos “Catito” Grzybowski, psicólogo e terapeuta familiar, é coordenador para o Brasil da Associação Internacional de Assessoramento e Pastoral Familiar (EIRENE) e assessor de relações internacionais do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC).

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