sexta-feira, 23 de julho de 2010

Presa da pressa

Os ritmos da vida variam nas estações existenciais. Ouvimos as fortes palavras do Eclesiastes: "Para tudo há uma ocasião certa; há tempo certo para cada propósito debaixo do céu" (Ec 3.1). Mas como compreender tal ponderação considerando nosso contexto atual?

Hoje em dia, um dos comentários mais comuns é sobre a falta de tempo para o muito que se gostaria de fazer. É fácil constatar os efeitos da má administração do tempo diante das pressões e desejos que nos alimentam. Em geral somos apressados, estressados e pouco saudáveis.
Por esses dias um comentário do escritor e colunista do jornal Folha de S. Paulo, Carlos Heitor Cony, me chamou a atenção. Ele diz: "Continuo indeciso diante do universo virtual... embora utilize da internet diariamente, continuo achando que ela é poluidora, não no sentido ecológico, mas espiritual. Dá informações demais, excessivas, inúteis e redundantes. Mesmo a comunicação por e-mail, que aboliu o fax, o telegrama e a carta postal, transformou-se numa correspondência cultural e afetiva maciça e nem sempre sincera, refletida e consciente. [...] Como a roda, a internet apenas nos facilita o caminho. Mas não nos aponta um destino".

Mais do que aprofundar questões a respeito do mundo virtual, das influências da internet, teorias, temores e dúvidas; proponho considerarmos expectativas e frustrações, escolhas e posturas. Além do mais, talvez, como diz o economista e professor universitário Tyler Cowen, "a questão não é informação de mais, é filtragem de menos". Ou seja, é preciso pensar mais e melhor sobre quem está diante da máquina.
Em meio à vida que não para, como desenvolvemos nossa capacidade de ouvir, de perceber, de recusar, de avaliar, de fazer escolhas? Será que as prioridades permanecem perdendo para as urgências? Somos meras presas do relógio que, com seus ponteiros, apontam nossa escravidão e despertam chibatadas em nossa consciência?

Em que gastamos nosso tempo, em que investimos nossa vida? Como dizia o renomado rabino, Abraham Joshua Heschel: "Há um reino do tempo em que a meta não é ter, mas ser; não possuir, mas dar, não controlar, mas partilhar, não submeter, mas estar de acordo. A vida vai mal quando o controle do espaço, a aquisição de coisas do espaço, torna-se nossa única preocupação". Qual a qualidade de nossa vida, então? A caminhada com Cristo nos ajuda a atentar e refletir muito mais a respeito de detalhes, outrora desapercebidos. É a sensibilidade que o Reino de Deus promove em cada um dos seus.

Gosto de uma conclusão simples, porém poderosa, colocada pelo pastor Ed René Kivitz ao comentar Eclesiastes: "Viva longe de Deus e viverá longe de si mesmo; viva apenas para si mesmo e nem isso você conseguirá. O caminho cristão para a felicidade é aquele em que a palavra 'prazer' cabe na mesma frase que a palavra 'Deus'".

Há uma certa cultura da quietude que a vida de Jesus nos inspira e ensina. Ela pode ser um tratamento para a "patologia da pressa". Pode haver uma conversão mais profunda para aqueles que decidem parar e ouvir a Deus, silenciar e contemplar a presença divina, e substancialmente perceber-se pobre, perdido, desestruturado diante do Criador que tudo fez bem, com perfeição, no seu devido tempo. E sabendo o tempo certo, celebrou e ensinou a celebrar; parou e ensinou a parar; e em Cristo viveu e mostrou como viver.

Que os propósitos sejam compreendidos com maior profundidade em pausas na companhia de Deus. Que o silêncio meditativo, para além da pedagogia que ele pode trazer, trate nossas entranhas por se saber partilhado em Deus.
Thais Machado

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